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As Cinco Forças da Autorrealização Humana

Existem forças ou padrões de experiências que somos capazes de acessar, e que nos conectam com as bases da existência.

Quando chegamos ao mundo, passamos por essas forças durante o nascimento biológico e além dele, na vida adulta.

Posteriormente, repetimos esses mesmos padrões em diversas situações. São as forças que nos movimentam física, mental e espiritualmente.

1a Força - Segurança, concentração e preparação da energia.

Gestação dentro do útero materno. Todas as condições são ideais para a geração do corpo do bebê, alimentação, crescimento e proteção.

Na vida pós-natal e adulta, são situações onde tudo se encontra em equilíbrio ou zona de conforto. Lugar ou situação onde não há necessidade de mudança.

2a Força - Interiorização e medo

Início do trabalho de parto, a bolsa do útero se rompe, fazendo com que todo o líquido amniótico seja eliminado, junto com o calor e a proteção do estágio anterior.

Contrações uterinas expulsam o bebê do útero, em direção ao canal do parto. A abertura ainda é muito pequena para permitir a passagem do corpo do bebê, então, ele fica entalado e preso.

Desenvolvimento da cautela, amadurecimento e sabedoria. Contato com as profundezas e aspecto espiritual da existência. Continuação da jornada do Herói, descida ao submundo e ao Inferno.

Na vida pós-natal e adulta, relação com todas as situações de vitimização, impotência, medo, incerteza, pânico e sensação de sem-saída.

Sentimentos e sensações relacionados:
Depressão, certeza da finitude, falta de esperança, ausência de futuro, prisões, identificar-se com prisioneiros de campos de concentração, pacientes de hospital psiquiátrico.

3a Força - Determinação e luta pela sobrevivência.

O bebê se encontra dentro do canal de parto, existe uma luz no fim do túnel. Enormes pressões mecânicas são exercidas sobre o seu corpo, despertando forças instintivas de reação e luta pela sobrevivência.

Na vida pós-natal e adulta, é a fase de máxima expansão da energia corporal e mental, raiva, agressividade, contato com outras pessoas. Agitação e dificuldade de ficar parado.

4a Força - Responsabilidade, reconhecimento do esforço e integração das dualidades.

Finalmente, após um grande esforço e, também, entrega e perdas, chegamos ao fim de uma jornada. Saímos de dentro do corpo da mãe, e somos um ser separado dela. Encontramos um novo lar. Dessa vez, reconhecendo a nossa força pessoal e limites.

5a Força - Transcendência e identificação com o Todo.

Somos capazes de ir além do ciclo de morte e renascimento, reconhecendo a transitoriedade e constante transformação que somos, o tempo todo. Podemos nos apegar a algum aspecto que nos defina, mas sempre seremos surpreendidos pela Transcendência.

Autor:
Antonio Vaszken Dichtchekenian - Psicólogo e especialista na teoria de Stanislav Grof. Pesquisador e psicoterapeuta de Renascimento.

Trecho - Cura Profunda - Stanislav Grof - Cap2

Trecho do livro "Cura Profunda - A Perspectiva Holotrópica" - Stanislav Grof. 2015, Editora Numina.

Capítulo 2 - Psicologia do futuro: lições da pesquisa moderna da consciência. Páginas 59 - 63  

"Relato de uma sessão psicodélica com alta dose, exemplo típico de MPB 1 (vida intrauterina), abrindo em alguns momentos para o nível transpessoal. "

"Tudo o que eu estava experienciando era uma sensação de mal-estar que parecia uma gripe. Eu não podia crer que uma dose alta de LSD, que em minhas sessões anteriores havia provocado mudanças dramáticas - até o ponto de, em certas ocasiões, ficar com medo de que minha sanidade ou mesmo minha vida estivesse em jogo - pudesse evocar uma resposta tão pequena.

Decidi fechar os olhos e observar cuidadosamente o que estava acontecendo. Neste momento, a experiência pareceu se aprofundar, e me dei conta de que o que parecia, com os olhos abertos, ser uma experiência adulta de doença viral, então se transformou numa situação realista de um feto sofrendo insultos tóxicos estranhos em sua existência intrauterina.

Encolhi drasticamente e minha cabeça era desproporcionalmente maior do que o resto do corpo e as extremidades. Estava suspenso em um meio líquido e alguns químicos nocivos estavam sendo canalizados para dentro de meu corpo pela área umbilical. Utilizando alguns receptores desconhecidos, eu detectava essas influências como nocivas e hostis ao meu organismo. Enquanto isso acontecia, estava ciente de que esses 'ataques' tóxicos tinham algo a ver com a condição e a atividade do organismo materno. Ocasionalmente, podia distinguir influências que pareciam ser devidas à ingestão de álcool, comida inapropriada ou fumo, e outras que percebia como mediadores químicos das emoções de minha mãe - ansiedade, nervosismo, raiva, sentimentos conflitantes em relação à gravidez e até mesmo excitação sexual.

Então a sensação de doença e indigestão desapareceram, e comecei a sentir um estado de êxtase que se intensificava cada vez mais. Meu campo visual tornou-se mais claro e brilhante. Era como se múltiplas camadas grossas e sujas de teias de aranha estivessem sendo magicamente rompidas e dissolvidas, ou como se um projetor de filme ou uma televisão de baixa qualidade tivessem o foco ajustado por um técnico cósmico invisível. A cena se abriu e uma quantidade incrível de luz e energia estava me envolvendo e transmitindo vibrações sutis por todo meu corpo.

Em um nível, eu era um feto tendo a experiência de extrema perfeição e felicidade de um bom útero e podia alternar para a experiência de um recém-nascido fusionado com o seio nutridor e provedor de vida da minha mãe.

Em outro nível, estava testemunhando o espetáculo do macrocosmo com inúmeras galáxias pulsantes e vibrantes e, ao mesmo tempo, podia realmente me tornar esse macrocosmo. Essas visões radiantes e de perder o fôlego eram misturadas com experiências do igualmente miraculoso microcosmo, desde a dança dos átomos e moléculas até as origens da vida e do mundo bioquímico de células individuais. Pela primeira vez, experimentava o universo tal como ele é - um mistério insondável, um jogo divino de energia. Tudo nesse universo parecia estar consciente e vivo.

Por algum tempo, eu oscilava entre o estado de um feto sofrido e doente e a existência intrauterina feliz e serena. Às vezes, as influências nocivas assumiam a forma de demônios insidiosos ou criaturas malévolas do mundo dos contos de fada. Durante os episódios sem distúrbios da existência fetal, tive a sensação de identidade e unidade com o universo. Era o Tao, o Além que Está Dentro, o Tat tvam asi (Você é Isso) dos Upanishads. Perdi o senso de individualidade; meu ego disolveu-se e tornei-me toda a existência.

Certas vezes essa experiência era intangível e sem conteúdo, outras vezes era acompanhada de muitas belas visões - imagens arquetípicas do Paraíso, a cornucópia fundamental, a era dourada ou a natureza virginal. Eu me tornei um golfinho brincando no oceano, um peixe nadando em águas cristalinas, uma borboleta sobrevoando vales nas montanhas e uma gaivota deslizando sobre o mar. Eu era o oceano, os animais, as plantas e as nuvens - às vezes todos esses ao mesmo tempo.

Nada de concreto aconteceu depois à tarde e à noite. Passei a maior parte do tempo me sentindo unida à natureza e ao universo, banhada em luz dourada que lentamente perdia sua intensidade."

#stanislavgrof #intrauterina #transpessoal #psicodelia #feto #perinatal

Biografia de Stanislav Grof, M.D., Ph.D.

De: Grof no Brasil
https://m.facebook.com/grofnobrasil

A carreira profissional de Stanislav Grof cobre um período de mais de 50 anos em que seu principal interesse tem sido a investigação do potencial heurístico e terapêutico de estados não-ordinários de consciência. Isto incluiu inicialmente quatro anos de pesquisa de laboratório de psicodélicos - LSD, psilocibina, a mescalina, e derivados de triptamina - (1956-1960) e quatorze anos de pesquisa da psicoterapia psicodélica. Ele passou sete desses anos (1960-1967) como Principal Investigador do programa de pesquisa psicodélica no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica em Praga, na antiga Tchecoslováquia. Isto foi seguido de sete anos de pesquisa de psicoterapia psicodélica nos Estados Unidos.

Os dois primeiros desses anos, ele trabalhou como Clinical and Research Fellow na Universidade Johns Hopkins e no Research Unitof the Spring Grove State Hospital em Baltimore, MD. Os cinco anos seguintes, ele ocupou o cargo de Diretor de Pesquisa Psiquiátrica no Maryland Psychiatric Research Center. Nesta função, ele dirigiu por vários anos o último sobrevivente projeto oficial de pesquisa de terapia psicodélica nos EUA.

De 1973 até 1987, ele era Scholar-in-Residence no Instituto Esalen, em Big Sur, Califórnia, onde ele desenvolveu em conjunto com sua esposa Christina uma forma poderosa de auto-exploração e psicoterapia que eles chamam de Respiração Holotrópica, sem uso de droga. Eles utilizaram este método nas oficinas e na formação profissional nas Américas do Norte e do Sul, Europa, Austrália e Ásia. Eles também trabalharam com muitas pessoas passando por episódios espontâneos de estados não-ordinários de consciência, crises psicoespirituais ou "emergências espirituais". Durante esses anos de pesquisa psicoterapêutica, Stan Grof fez as seguintes contribuições:

Desenvolveu a teoria e a prática da psicoterapia psicodélica-assistida e a descreveu em seu livro LSD Psychotherapy, que tem sido até hoje o único tratado global sobre este assunto.

Publicou mais de 150 artigos e 20 livros que discutem as implicações teóricas e práticas de pesquisa moderna da consciência para a psiquiatria, psicologia e psicoterapia.

Criou uma nova cartografia estendida da psique, que inclui, além do nível biográfico rememorativo, dois níveis adicionais ao inconsciente individual freudiano - o perinatal (relacionado com o trauma de nascimento) e o transpessoal (que inclui o ancestral, o racial, o coletivo, o filogenético, o cármico e as matrizes arquetípicas).

Desenvolveu, com sua esposa Christina, a Respiração Holotrópica (um método de psicoterapia que utiliza estados não-ordinários induzidas pela respiração mais rápida e mais profunda, música evocativa e trabalho corporal) e o Grof Transpersonal Training, um extenso programa de treinamento para facilitadores de Respiração Holotrópica que certificou mais de 1.000 profissionais em várias partes do mundo.

Formulou juntamente com Abraham Maslow, Anthony Sutich, Sonya Margulies e Jim Fadiman os princípios básicos da psicologia transpessoal, uma disciplina que explora o todo o espectro da experiência humana e tenta integrar espiritualidade e o novo paradigma da ciência. Ele recebeu da Associação de Psicologia Transpessoal (ATP), por ocasião da sua conferência em Asilomar, CA, ao comemorar o vigésimo quinto aniversário da sua fundação, um prêmio especial por sua contribuição para o desenvolvimento deste campo. A Psicologia Transpessoal teve um rápido crescimento desde a sua criação no final dos anos 1960. No momento, ela está sendo ensinada em várias universidades americanas e escolas conveniadas, tem duas revistas especiais, e simpósios em conferências profissionais. As associações de psicologia transpessoal também existem em muitos países do mundo.

Tentou fornecer uma base teórica sólida para a psicologia transpessoal, explorando em seus escritos a sua relação com vários avanços revolucionários de novas ciências paradigmáticas.

Fundador e ex-presidente da Associação Transpessoal Internacional (ITA). Organizou em parceria com sua esposa Christina nove grandes conferências internacionais desta associação em Boston, MA; Melbourne, Austrália; Bombaim, na Índia; Santa Rosa, CA; Eugene, OR; Atlanta, GA; Praga, Tchecoslováquia; e Manaus, Brasil.

Junto com sua esposa, Christina, eles foram convidados pela Metro Goldwyn Meyer como consultores especiais para o filme de ficção científica, Brainstorm, e mais tarde para o filme Millenium. Actualmente, Stan Grof está interessada em voltar a este trabalho em um projeto que iria usar o melhor dos efeitos especiais disponíveis hoje para retratar vários estados não-ordinários de consciência no contexto de filmes com orientação transpessoal.

9 MITOS SOBRE O REBIRTHING E A RESPIRAÇÃO CONSCIENTE

  • O Rebirthing pode ser realizado por qualquer pessoa, sem acompanhamento especial de um terapeuta, pois utiliza a respiração, que é um recurso com o qual todos nós estamos acostumados. 
Mito - O Rebirthing é a respiração realizada de maneira consciente e presente, com o olhar voltado para o nosso universo interior. No dia-a-dia, estamos voltados para o mundo externo, sentimos que os outros nos fazem bem ou mal, e que nos sentimos de tal maneira por causa de um evento externo. Na realidade, somos a relação entre o mundo interno e o mundo externo. Não somos uma “tábula-rasa”, que apenas reflete o exterior. Possuímos uma complexa rede de significados e intenções, que se localizam tanto em nós quanto no mundo externo, e por isso somos uma unidade com o universo. Quando respiramos de maneira consciente e acessamos esta rede de significados, temos a oportunidade de reviver experiências, e de ressignificar o negativo em positivo. Quando somos acompanhados, a tendência é que a cura seja mais fácil, pois podemos ser apoiados e ajudados a encarar algum aspecto desafiador que nossa memória possa estar nos trazendo naquele momento.

  • Uma sessão de Rebirthing costuma ser superficial e trazer poucos resultados, pois não utiliza a análise nem o discurso verbal, e por isso, a tendência é manter-se num estado de consciência superficial ou neutro ao autoconhecimento.
Mito -  Apesar de não haver nenhuma interação verbal entre o terapeuta e o respirante, as experiências podem ser muito profundas e significativas. Isso ocorre por não sermos uma “tábula-rasa”, e possuirmos em nós um vasto universo de imagens, memórias e fantasias, que são trazidas à consciência através da respiração consciente, e transformadas com a respiração intencional.

  • O Rebirthing utiliza um tipo específico e padronizado de respiração, o que nem sempre funciona para todas as pessoas.

Mito - O Rebirthing é um método libertador de padrões e de condicionamentos. O objetivo principal da Respiração Consciente é encontrar o modo próprio de estar-no-mundo, conectar o sentir, o pensar e o agir, e promover a autorrealização. Deste ponto de vista, a respiração de cada pessoa é única, e quando ela altera conscientemente o seu modo de respirar, também começa a modificar os seus padrões comportamentais e emocionais.Então, quanto mais livre ela se sentir, também respirará de um modo livre e sem bloqueios. O terapeuta, observando de fora, é capaz de ajudar o respirante a respirar de um modo mais solto e livre de amarras.
  • O Rebirthing é uma indução ou tipo de hipnose, para reviver o parto biológico, através de sugestões como “imagine um lugar tranquilo” , “você é um lindo bebê”, etc.
Mito - A Respiração Consciente não induz, nem utiliza afirmações sugestivas, em nenhum momento. Ele tem esse nome por lidar com questões humanas que encontram sua raízes no momento inicial da vida de uma pessoa, que é o parto biológico. A única instrução utilizada é a de respirar e de prestar atenção ao que ocorre conosco.

  • A Respiração Consciente ou Rebirthing não requer todo o trabalho de análise e interpretação que o método de uma psicoterapia verbal carrega consigo, e por isso, é limitada a experiências corporais.

Mito - O Rebirthing é também uma psicoterapia ou psicanálise muito eficiente e profunda. Ela não dispensa a presença de um terapeuta ou facilitador-terapeuta, pois o trabalho consiste de pelo menos, duas etapas básicas - 1) a respiração ou vivência, na qual ocorre a abertura e a transformação pessoal, e 2) o processamento cognitivo e afetivo da vivência, que é o tempo e o espaço necessário a cada indivíduo digerir e colocar em prática o aprendizado adquirido naquela sessão de Rebirthing. Os tipos de experiências que ocorrem numa sessão ultrapassam a nossa capacidade analítica e sintética de apreensão, e alcançam uma compreensão integrada e total do nosso ser.

  • Uma sessão de Rebirthing pode agravar os sintomas de ansiedade, desânimo, depressão, pânico e fobias.
Mito - As modernas pesquisas clínicas da consciência e a experiência de terapeutas com Rebirthing e a Respiração Consciente mostram justamente uma melhora, não temporária, mas definitiva desses sintomas. A vivência de respiração consciente traz uma conexão da mente com o corpo, que é semelhante aos processos que ocorrem durante o sono REM e os períodos do sono com sonhos, que é onde ocorrem reprocessamento neurológico de experiências do dia anterior.
  • O Rebirthing utiliza um modelo limitado ao trauma do nascimento biológico e, uma vez que, nem todas as pessoas têm questões relacionadas ao parto, isso pode representar limitações no tratamento .

Mito - O modelo utilizado no Rebirthing é expandido, e inclui todas as dimensões da experiência humana, desde o inconsciente individual, tal como a Psicanálise freudiana o compreende, passando pelo domínio perinatal ou do parto biológico, que é um campo intermediário entre o inconsciente individual e o inconsciente coletivo. Este ultimo domínio do inconsciente, de acordo com Carl Jung é onde encontramos as respostas para as questões e dramas pessoais, assim como a cura de inúmeras doenças e distúrbios psicossomáticos. O nascimento é uma grande referência em nossas vidas, pois é a chegada a este mundo, mas não temos recordação consciente deste momento.


  • A experiência do Rebirthing pode ser parecida com uma viagem de droga, e pode piorar quadros de vícios e dependência química.
Mito - Uma sessão de Rebirthing pode ser parecida com uma viagem de droga, mas, diferente de uma substância química, é um processo totalmente ativo e que requer envolvimento por inteiro de quem respira. Diferente de uma droga, que apresenta um efeito químico, o fluxo de experiências do Rebirthing depende da escolha de continuar respirando. Durante este processo, a consciência é alterada de maneira favorável e consegue acessar mecanismos de cura e de resolução de questões, trazendo uma percepção mais lúcida e realista do que o modo que muitas vezes vivemos no cotidiano. Uma vez que este trabalho de Respiração Consciente é realizado num ambiente que segue as normas de ética, onde se respeita a experiência pessoal do respirante, e não inclui julgamentos morais, ela promove uma expansão da consciência e equilíbrio emocional. 


  • A Respiração Consciente ou Rebirthing serve mais para a saúde física do que para a saúde mental.

Mito - Na medida que nos libertamos de condicionamentos e padrões de pensamentos e atitudes negativos, também somos capazes de cuidar melhor de nosso ser, e isso inclui cuidar bem do nosso corpo físico. Além disso, muitas doenças possuem origem psicossomática e são um reflexo das nossas emoções e reações condicionadas. Dentre elas, podemos citar a bronquite ou asma, alergias de pele, psoríase, fibromialgia e algumas disfunções sexuais, tais como a frigidez, impotência masculina e ejaculação precoce.

Sonhos de Parto e Nascimento

 


Quem já não teve sonhos assim? 

Sonhar que está passando por um buraco ou fresta, de alguma maneira claustrofóbica, sendo a única saída disponível.

Sonhar que se está em um labirinto, ou num ambiente de arquitetura labiríntica, podendo ser sem-saída ou com uma saída quase impossível.

Sonhar que se está girando e caindo numa espécie de espiral, sem controle e com muita angústia.

Pois essas situações e sensações são muito parecidas com aquelas vividas num parto normal ou nascimento biológico, e é bem fácil acessar esse tipo de memória sensorial durante um sonho, que é quando a nossa consciência se abre para muitos aspectos inacessíveis no dia-a-dia.

Stanislav Grof, um psiquiatra tcheco, com 81 anos de idade, morando atualmente nos EUA, estudou por mais de 50 anos experiências psicodélicas e estados modificados de consciência sem drogas, em mais de 200.000 indivíduos desde os anos 1960.

Suas pesquisas clínicas demonstraram que reviver o próprio parto em estados modificados de consciência, inclusive em sonhos, tem um grande potencial de cura e transformação da personalidade.

Segundo a medicina tradicional, o nascimento é um evento inacessível à memória cognitiva, devido à falta de uma estrutura completa de neurônios de memória. 

Porém, diversas teorias psicológicas tais como a psicanálise Winnicotiana, a psicologia infantil de Melanie Klein, assim como estudos das fases do desenvolvimento do comportamento humano, atribuem uma significativa influência de problemas da gestação e do parto, nos comportamentos e nos modos de relação do bebê com o mundo, desde a esquizofrenia até distúrbios agressivos. 

Otto Rank foi o primeiro psiquiatra a citar a influência do "trauma do nascimento" na personalidade. Discípulo de Sigmund Freud, encontrou grandes resistências ao defender suas hipóteses sobre o trauma vivido pelo bebê ao perder a segurança da mãe, no momento do nascimento. 

Stanislav Grof, com suas pesquisas clínicas, nos revela que o trauma do nascimento é marcante em todos nós, não apenas quando saímos de dentro do corpo materno, mas desde a gestação até as fases biológicas do trabalho de parto. 

Ele denominou essas quatro fases do nascimento de Matrizes Perinatais. Matrizes, por serem padrões de experiências físicas e simbólicas, que remetem tanto ao nascimento biológico quanto a um renascimento psicológico do adulto, onde ele renova suas referências existenciais de ser-no-mundo com si mesmo e com os outros. Perinatal, por estar ao redor ou próximo (peri) do nascimento (natal). 

O parto é a nossa chegada inicial e marcante ao mundo. E podemos reviver as sensações de estar nascendo ou morrendo (ansiedade, pânico, tontura) quando estamos prestes a uma mudança existencial significativa (crise da adolescência, casamento, novo emprego, perda de situações conhecidas, etc). O parto é ao mesmo tempo uma experiência de morte e renascimento.

Ao reviver o próprio parto, somos adultos regredindo a uma experiência remota, onde a consciência adulta é capaz de atribuir um significado adulto e maduro a uma situação de vulnerabilidade e insegurança, vivida por um bebê.

Ainda que o nascimento biológico exerça uma influência, devemos ser cautelosos para não reduzir todos os problemas de saúde físicos e psicológicos a problemas de gestação ou dificuldades do parto.

Gestalt-Terapia como uma abordagem Transpessoal

(Texto original: GESTALT THERAPY AS A TRANSPERSONAL APPROACH)


Autor: Claudio Naranjo, M.D.

Tradução-livre: Antonio Vaszken Dichtchekenian


EMBORA A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL TENHA se diferenciado como uma abordagem especifica dentre a “3a Força” que veio a ser chamada Humanista, não restam dúvidas de que a Psicologia Humanista - que Maslow apontou como uma alternativa às psicologias mecanicistas de Freud e Pavlov e seus seguidores - se referem à aquilo que é propriedade humana nos seres humanos, junto com valores, significado, o desenvolvimento da consciência e, de modo geral, “os maiores potenciais da natureza humana”. Foi um termo ambíguo usado para uma psicologia implícita ou explicitamente conectada ao lugar que a espiritualidade ocupa na vida humana, pois o Humanismo no passado servira para descrever uma orientação filosófica secular, a palavra faz alusão neste contexto a uma oposição entre uma visão centrada no humano, e uma perspectiva teocêntrica. De fato, é possível distinguir dentre os humanistas, aqueles mais orientados para o Humanismo (no sentido tradicional da palavra) daqueles que têm uma orientação mais Transpessoal.

Ainda que nomes comuns possam ser confusos, e que não seja entendido que apesar de suas origens psicanalíticas e das influências de sistemas gerais de pensamento - as maiores diferenças características da Gestalt-terapia são, realmente, transpessoais.

Por transpessoal quero dizer aquilo que está além do “pessoal” no sentido de personalidade condicionada e individual. “Ao invés de impessoal”, escreve Rudhyar, que iniciou este termo em 1929 (com certeza antes de qualquer outra pessoa), “vamos usar outra palavra mais significativa - Transpessoal. O tipo pessoal de comportamento (ou sentimento, ou pensamento) é enraizado no significado e na forma condicionada de personalidade. Uma forma transpessoal de comportamento é aquela que parte do Self não-condicionado do Homem, utiliza a personalidade apenas como um instrumento” (1975).

Jung, dizem ter usado esta palavra algumas vezes, possivelmente com o significado dos conteúdos do inconsciente coletivo, em oposição aos conteúdos do inconsciente pessoal e da consciência. Na forma de arquétipos, Jung modificou o espiritual em uma psicologia mecanicista, do mesmo jeito que a Psicologia Transpessoal faz hoje. Ainda que a Gestalt-Terapia tenha sido reduzida a uma abordagem humanista ao invés de uma abordagem transpessoal - atualmente quando ambos os termos são dominantes no sistema de pacotes psicológicos - reflete uma tendência (pelo menos nos anos anteriores) de associar o transpessoal mais com o campo visionário, estados alterados de consciência e o paranormal, do que com a base de todos eles: a própria consciência.

Entretanto, o fato é que a consciência é transpessoal. Ou, usando um termo mais recente, espiritual. As tradições mais articuladas deixam isso muito claro. Budismo (da raiz bodh, “desperto”) não é um estado específico de consciência ou da mente, mas a própria mente, o recipiente. Talvez mais explícito seja o Sufismo, que deixa claro que o objetivo do despertar do estado restrito de consciência que é a consciência ordinária, está além dos estados espirituais.” São manifestações derivadas da própria consciência e o resultado da influência transpessoal sobre o pessoal (ou, nos termos tradicionais, do espiritual sobre o ego) que é a explicação comumente usada para o novato “se embebedando com um pouco de vinho” (ou seja, manifestando uma abundância de fenômenos extáticos e visionários no pequeno baraka, ou “força espiritual”).

A tendência natural do iniciante de ficar mais animado sobre o fenômeno produtivo da “embriaguez espiritual” do que a consciência que torna isso possível, é comentada numa estória espiritual coletada por Idries Shah em “Tales of the Dervishes” (Contos dos Dervishes). É um conto de um jovem que foi guiado por um dervishe a um local onde ele evocou a Terra para se abrir e instrui-lo a descer e encontrar um candelabro de ferro. Assim que o jovem desceu até o local específico, ele viu belíssimos tesouros que lotavam seus braços com jóias e ouro. Então, ele viu o candelabro e decidiu levá-lo junto também. Quando ele saiu, entretanto, o dervishe não estava mais lá e seu tesouro desaparecera. Apenas restava o candelabro. Isso é apenas o começo da estória, que conta como este candelabro era mágico e podia ser utilizado de um certo modo para conquistar tesouros, e como o jovem, em função de sua ganância e pouco conhecimento, perdeu-o. Este pequeno exemplo serve para ilustrar a relação entre consciência e os estados “espetaculares” de consciência. Consciência, como a conhecida galinha e os ovos de ouro, é o verdadeiro tesouro, mas a nossa tendência é a de não valorizá-la.

Considero que uma mudança dos conteúdos mentais para a própria consciência pode bem ser a característica mais marcante das terapias humanistas e transpessoais; ainda que esse vazio na prática psicoterapêutica, precedeu um vazio correspondente na teoria, e consequentemente (apesar do interesse crescente em meditação) a natureza transpessoal da consciência não foi definida corretamente.

O fato de a Gestalt-Terapia ser normalmente reduzida a Humanista ao invés de Transpessoal reflete esta falta de precisão conceitual, embora a mais compreensível se considerarmos que a espiritualidade da Gestalt-Terapia é, de um certo modo, disfarçada. Com esse, “de um certo modo” me refiro a rejeição de Perls pela religiosidade ordinária. Sua prática comum de responder ao papo “espiritual” (e outros assuntos também) como um sintoma neurótico foi apropriado, entretanto, é mais espiritual ainda desafiar o paciente a se relacionar consigo mesmo além dos campos simbólico e ideal. Me recordo da perplexidade de um religioso, por exemplo, para quem Perls respondeu sobre um assunto espiritual “Me sinto separado de você pelo seu Deus.” Ele esclareceu: “Você coloca Deus entre você e eu.” Claro que estava se referindo à tendência semi-universal de complicar ações diretas e espontâneas no aqui-agora com modos ideológicos de relação. Houveram muitos, com certeza, que deixaram de acreditar nele como autoridade espiritual assim que ele magoou suas crenças sacrosantas, e isso colaborou para a visão de um homem e sua obra como anti-espiritual.

Espiritualidade não é matéria de ideologia, entretanto, a natureza transpessoal de uma teoria é um fato que ultrapassa afirmações a respeito dela. A experiência satori ou despertar pessoal de Perls, como descrita em sua autobiografia, e sua experiência com meditação (ele disse a mim, certa vez, que vivia em Esalen, que praticava pelo menos uma hora diária) sem dúvida serviram de fundo para a forma da Gestalt-terapia como um equivalente moderno da prática Budista. Isso aconteceu particularmente enquanto esteve na Califórnia e talvez sem seu conhecimento.

A prática budista é essencialmente treinamento da consciência com moralidade. Assim também é Gestalt-Terapia, ainda que a palavra moralidade pareça ser distante de espiritualidade. Inasmuch como o processo terapêutico da Gestalt busca debilitar aquilo que Karen Horney (analista de Perls) chamava de “tirania dos debeísmos” (1950) com o qual a moralidade ordinária anda de mãos dadas, a teoria a princípio pode ser vista tanto como antiespiritual quanto antimoral. Uma visão mais profunda, entretanto, mostra um contexto (especialmente em grupos) para uma prática de virtudes como a coragem e autenticidade, que são a essência central do desenvolvimento moral - além das regras específicas de comportamento. De fato, expressei em outro lugar, as ações do terapeuta devem ser compreendidas, de um ponto de vista, como reforçamentos negativos de comportamentos inautênticos e apoio da auto-expressão genuína.  

Moralidade deve ser entendida como o trabalho interpessoal da espiritualidade tradicional. Os primeiros mestres de várias culturas perceberam claramente o quão decepcionante o desenvolvimento mental é, se as práticas contemplativas são realizadas sem a fundação de uma prática orientada pela transcendência de comportamentos compulsivos e aversivos conhecidos como paixões. Sem mentir, sem roubar, sem matar ou machucar são os modos orientais de crescimento, não apenas moralidade, como vieram a ser em nossa tradição-mosaico, mas em Patanjali, preliminares do Samadhi e, em “O Caminho dos Oito Passos” de Buda, aspectos da vida correta e do esforço correto, que seguem a visão correta e preparam o chão da mente e da concentração corretas. É difícil imaginar tentativas bem-sucedidas que levem a uma vida pura neste senso tradicional, sem um processo de mudança da personalidade envolvendo a diminuição de necessidades débeis e uma diminuição do vínculo com a decepção. Na ausência de um contexto mental apropriado e num clima de autoritarismo (ambas, condições do nosso backgroud cultural), moralidade torna-se moralismo, entretanto, que leva não ao aumento da transcendência da deficiência (ou seja, desapego), mas à repressão.
O revigorar dos EUA puritano tem se caracterizado pela crise da repressão, e muitas terapias conduziram a isto - proclamada pela psicanálise - caracterizam-se não pelo controle do comportamento mas pela perda dos controles; não pela inibição mas pela expressão.

Igual a outras terapias contemporâneas, Gestalt-terapia é de considerada um modo de consciência através da expressão - não apenas verbal mas motora-gestual, imaginal, e comumente entendida como artística. O que é geralmente esquecido, entretanto, é que a teoria Gestalt envolve um não menos importante mas sutil e menos explicado elemento de inibição voluntária: inibição da conceitualização obssessiva, da manipulação, e do comportamento inautêntico (“jogos”). Sim, “vale tudo”, na abordagem Gestalt contanto que a experiência seja comprometida, assim como sua expressão, exagerada “acting out”, dramática como deve ser no contexto da experiência guiada, não é nada que possamos denominar de regra da Gestalt. Exatamente porque a característica do comportamento inautêntico dos modos neuróticos de ser-no-mundo envolvem uma tentativa de evitar certas experiências, a atitude do terapeuta é convidar ao desfazer dessas evitações, um “fique com isto”, ainda que dolorido e confuso. Na visão de Perls, nossa consciência é restringida porque não aceitamos o nosso sofrimento, e o processo terapêutico necessariamente implica (como nas tradições espirituais, devemos citar) um elemento de austeridade. A austeridade básica, podemos chamar assim, é a não-indulgência do que as tradições espirituais chamam de ego, e Perls chama de caráter e equalizar com um sistema de respostas fixas obsoletas que interferem com a função do organismo. Para ele (e isso foi uma visão impopular na época) o ser humano ideal seria além do caráter - uma frase que traduziríamos como: “funcionando no nível transpessoal”.

Como Perls era um não-dualista fervente - no sentido de negar  “a superstição de que haja separação, ainda uma inter-dependência entre duas substâncias, o mental e o físico”  (Perls, 1969, p.2) - ele preferira a palavra organismo à alma ou Self. Para ele, “mente-matéria como unidade é verdadeiramente um organismo.” Sua escolha da terminologia (emprestada do Smuts [1926] e Goldstein [1939] sem dúvida contribuiu para uma impressão generalizada que sua visão era materialista ao invés de espiritual (ou seja, transpessoal). Essa presunção é facilmente desfeita se considerarmos sua visão de consciência - junto com espaço e tempo - como um aspecto fundamental do universo dentre seus diferentes níveis de organização. Além do mais, a integração das visões materialista e espiritual em seu pensamento é conveniente com suas afirmações a seguir:

“Thus matter seen through eyes of mine
Gets god-like connotation”

Seja a matéria vista pelo olhos meus
Ganha conotação divina
(Perls, 1969)

e (referindo-se ao tempo, espaço e consciência)

“The triple God is ultimate
He is creative power
Of all the universal stuff.”


O Deus triplo é definitivo
Ele é poder criativo
De todas as coisas universais.
(Perls, 1969)

se a moralidade da Gestalt-Terapia é aquela da autenticidade e não-manipulação (do self ou outro), seu treinamento da percepção (awareness) pode ser resumido na afirmação que J. S. Slmkin propôs como uma síntese da abordagem: “Eu e tu, aqui e agora.” Em outras palavras, é uma prática de consciência no relacionamento (ainda que às vezes seja uma relação internalizada). Nisto se diferencia da prática do Budismo da consciência em isolamento. Assim como um treinamento em percepção, o sétimo item de “Caminho dos Oito Passos” é um processo transpessoal, a prática da consciência (awareness) em relacionamentos pode ser descrita, da mesma forma que a Gestalt-terapia em geral, como trazer o transpessoal para o interpessoal.

O cultivo da consciência do aqui-agora em Gestalt-Terapia anda de mãos dadas com outro tema compartilhado pelas psicologias tradicionais, Budismo em particular. Chamaremos isso de “abertura”: estar consciente do que ocorre aqui e agora em nosso campo de experiência. Envolve uma atitude básica de permissão - uma aceitação indiscriminada da experiência, que é um “abandonar” ou deixar de lado os padrões ou expectativas. Expressa-se na Gestalt-Terapia de inúmeras formas, diferente do ato de ser consciente sem manipulação pessoal.

Uma dessas formas é o que Fritz Perls chamou, depois de S. Friedlander, “indiferença criativa” (1966). Com isso, ele quis dizer a habilidade de permanecer num ponto neutro, desconectado das polaridades conceituais e emocionais opostas em jogo em cada momento da consciência. Perls demonstrou uma medida de indiferença criativa sendo um psicoterapeuta, ao ser capaz de ficar no ponto zero sem ser pego pelos jogos de seus pacientes. Acho que o ponto zero é um refúgio do terapeuta Gestalt no meio da intensa participação - não apenas uma fonte de força mas um suporte pessoal definitivo.

Um outro aspecto da abertura em Gestalt-Terapia é a aceitação da não-experiência; a aceitação do nada (nothingness). Perls deu bastante importância a isto, a ponto de descrever o processo terapêutico como um caminho “do vazio estéril ao vazio fértil” (Perls, 1969). Por “nada” (nothingness) ele quis dizer não-coisa (no-thingness) - ou seja, awareness não-articulada indiferenciada - e falando em vazio fértil ele quis dizer que estar na casa da consciência indiferenciada é a fundação ou chão para uma figura saudável da awareness articulada no aqui-e-agora. Em várias ocasiões os Gestalt terapeutas observam a sequência de “nadas” (nothingness) - explosões psicológicas, muitas como uma parcial morte-renascimento, e mesmo Perls sabia bem que “morrer e renascer não é fácil” (Perls, 1969), ele viu esse processo eminentemente transpessoal como a essência da terapia, e também da vida. Seu envolvimento completo nisso se reflete em uma de suas pinturas a óleo que deixou: um auto-retrato onde ele se vê abraçando seu próprio esqueleto.

Não apenas a Gestalt-Terapia encontra o Budismo (e outros caminhos espirituais), sua prescrição de relações virtuosas e cultivo da consciência (awareness), a awareness da dor e da morte em particular, também compartilha com antigos protótipos uma encarnação de feroz guru, que espeta e pisoteia o ego humano. Hesse ressaltou que existem professores apaixonadamente orientados para o exterior, e professores cuja compaixão fala através do giz. Perls, como um Mestre-zen arquetípico, foi um professor habilidoso, foi um mestre da redução do ego antes que Oscar Icharo utilizasse o termo “Arica Training”. Sua tribo cultivou essa habilidade, levando tão a sério a ponto de não pensarmos que é uma técnica. Mais do que um Mestre-zen, entretanto, Perls lembra o primeiro individuo transpessoal e terapeuta, o xamã; e xamanista, também, é o exemplo do papel do terapeuta gestalt como um guia-experiente, um condutor consciente. Este também é o papel daqueles que trabalham com a consciência corporal, com fantasia, ou quem oferece a experiência de meditação guiada; e podemos dizer que a terapia contemporânea está se tornando extremamente xamanista em estilo, e em outras referências. O que faz o papel do terapeuta gestalt particularmente xamãnico, entretanto, é a versatilidade de mover-se organicamente entre os domínios sensorial, afetivo, cognitivo, interativo e imaginativo, potencialmente, o domínio da consciência em si mesma.

Além do papel de guia-experiente, entretanto, o terapeuta gestalt tende a carregar, em um grande ou menor quantidade, o imprint de Fritz Perls em seu ser; e Perls era um xamã em mais de um papel: em sua confiança na intuição, sua orientação cientifica-artística, sua combinação de poder e simplicidade, seus modos incomuns e desafios da tradição, sua familaridade com paraísos e infernos, e talvez o mais importante, sua capacidade dionísica de apreciação da entrega. Acho, também, que ele não era diferente de um verdadeiro xamã quando se descreveu como “50 por cento filho de Deus e 50 por cento filho da puta.” O transpessoal dentro do interpessoal.

Curador Interno - Inner Healer




A teoria de Stan Grof é baseada totalmente nas suas pesquisas clínicas de laboratório. 

Estas, realizadas desde os anos 1960, inicialmente com a substãncia recém-sintetizada em laboratório LSD, pela Sandoz na Suíça, e posteriormente, com técnicas de alteração da consciência sem drogas, como a Respiração Holotrópica (tm) e o Renascimento.





Inicialmente nomeada de "Integração Holonômica" e por fim "Respiração Holotrópica", essa técnica utiliza o conceito de "curador interno" (inner healer, em inglês).

Trata-se da capacidade intrínseca de cura da consciência, presente tanto nos estados ampliados, quanto nos estados comuns do dia-a-dia.

Tem a função de trazer à consciência os conteúdos (sensações,imagens, situações, emoções, memórias, insights) para serem reconectados à totalidade da mesma. 


O "Curador Interno" funciona como um "radar", que seleciona conteúdos
de maior relevância para ficarem totalmente conscientes



O "curador interno" está acessível a todas as pessoas, em graus diferentes de manifestação. Recomenda-se atenção e percepção das informações que esse aspecto está sempre disposto a nos mostrar.

Essencialmente, significa que todas as situações da nossa vida são oportunidades de cura de nossos sofrimentos, desde que elas sejam compreendidas como tal, ao invés de castigos ou coincidências que cruzam a nossa existência.

No dia-a-dia, situações que nos provocam reações conhecidas, na verdade, podem nos revelar muito a respeito de nós mesmos, se observarmos nossas reações de um modo "objetivo", sem julgamentos pré-definidos de valor. 

Nossa educação tradicional nos direciona a olhar para os objetos e o mundo externo, e encarar nossas reações como consequências diretas do mundo externo. Além disso, não somos ensinados a observar a nós mesmos de modo semelhante ao que fazemos com os objetos externos, mas isso também é possivel com práticas de meditação, contemplação, relaxamento e hipnose, para citar algumas. 

A meditação permite aprimorar o olhar para dentro de nós mesmos,
e trazer a consciência para o momento presente.


Nas sessões de Respiração Holotrópica (tm) e Renascimento, a percepção do fluxo de consciência fica mais fácil de ser observada, em função da sua ampliação, e da consequente ação de mecanismos de cura, como o "curador interno", que torna-se o centro das atenções, pois o foco da mente está voltado para o mundo interior.

O conceito de "curador interno / inner healer" devolve às pessoas seu poder de auto-realização e autoconhecimento, se promovido num ambiente de respeito e apoio incondicionais ao que cada pessoa revela de si mesma no mundo.

A função do terapeuta é a de facilitador do movimento de cura que já está ocorrendo, até que este processo se complete, e a pessoa seja capaz de existir no mundo sem o acompanhamento do terapeuta.

Allan Watts - E se dinheiro não fosse um problema?

Allan Watts - "E se o dinheiro não fosse um problema?"

Estrategia De Vida - O Caminho Do Curso D`agua

Trechos do livro "Quando o Impossível Acontece", de Stanislav Grof, pela Editora Heresis, 2007
"O Caminho do Curso D`água" - Pagina 79

 
(...) Uma das características mais impressionantes do trabalho experimental profundo com estados ampliados de consciência é o efeito que tem sobre o nosso modo de vida e sobre a estratégia que usamos para lidar com desafios e projetos. O modelo oferecido em sociedades tecnológicas, no que se refere a isso, é definir o objetivo que desejamos conquistar e buscá-lo com energia concentrada e determinação inabalável. Isto inclui a identificação e remoção de obstáculos que impedem nosso avanço e o combate com potenciais inimigos. A vida de um indivíduo que siga essa receita assemelha-se a uma luta de vale-tudo ou uma competiçao de boxe (...)" . 

(...) Trabalhei com muitas pessoas que conseguiram entender as forças psicológicas subjacentes a esta estratégia e transcendê-la. Essas pessoas descobriram que este enfoque à existência reflete o fato de que não superamos a marca deixada pelo trauma do nosso nascimento em nossa psique e estamos separados e alienados do domínio espiritual. Nossos esforços para conquistas externas são projeções de um esforço mais profundo e muito mais fundamental para completarmos psicologicamente o processo do nascimento e para fazermos uma conexão espiritual. Não há fim para a nossa fome por conquistas externas, porque nunca temos o bastante do que, na verdade, não precisamos ou desejamos (...). 



(...) A auto-exploração responsável e sistemática pode ajudar-nos a superar o trauma do parto e a fazer uma conexão espiritual profunda. Isto nos leva na direção do que os mestres espirituais do tao chamam de wu wei, ou "quietude criativa", que não é ação envolvendo o esforço ambicioso determinado, mas fazer por ser. Isto é chamado, às vezes, de "caminho do curso d`água", porque imita o modo como a água opera na natureza (...).

(...) Em vez de nos concentrarmos em determinado objetivo pré-fixado, tentamos sentir a direção em que as coisas se movem e como podemos nos ajustar a esse movimento. Esta é a estratégia usada nas artes marciais e no surfe, que envolve o foco sobre o processo, em vez de no objetivo e no resultado. Quando conseguimos enfocar a vida dessa forma, acabamos por conquistar mais e com menos esforço. Além disso, nossas atividades não são egocêntricas, exclusivas e competitivas, como ocorre durante a busca de metas pessoais, mas inclusivas e sinérgicas. O resultado não nos traz apenas satisfação, mas serve também a um fim maior da comunidade (...).

(...) Também observei repetidamente e já senti pessoalmente que, quando operamos nessa moldura taoísta, coincidências benéficas e sincronicidades extraordinárias tendem a ocorrer em apoio ao nosso projeto e nos ajudam em nosso trabalho. Descobrimos "acidentalmente" as informações que precisávamos, as pessoas certas aparecem no momento certo e os fundos necessários nos vêm inesperadamente (...).

O Mistério da Sincronicidade

Atendendo a pedidos, seguem abaixo trechos exttraídos o livro de Stanislav Grof - "Quando o Impossível Acontece" - Editora Heresis, 2007. Primeira parte - O Mistério da Sincronicidade - páginas 31 a 34
"(...) O cientista responsável por dirigir a atenção dos círculos acadêmicos para o problema de coincidências significativas que desafiam uma explicação racional foi o psiquiatra suíço C.G. Jung. Consciente do fato de que a crença inabalável no determinismo rígido representava o marco da visão científica ocidental, ele hesitou por mais de vinte anos, antes de tornar pública a sua descoberta. Esperando forte descrença e duras críticas de seus colegas, ele quis garantir que poderia apoiar suas asserções hereges com centenas de exemplos. Então, ele finalmente descreveu suas observações revolucionárias em seu famoso ensaio com o título de: "Sincronicidade: um princípio de conexão acausal"(...).



(...) Jung também relatou uma história divertida contada pelo famoso astrônomo francês Flammarion, sobre um certo monsieur Deschamps e um tipo especial de ameixa. Quando menino, Deschamps recebeu uma porção desse pudim raro de um monsieur de Fontgibu. Durante os dez anos seguintes, ele não teve oportunidade de provar aquela delícia, até ver o mesmo pudim no cardápio de um restaurante de Paris. Ao pedir uma porção do pudim ao garçom, teve o desprazer de descobrir que o último pedaço já fora pedido e consumido por monsieur de Fontgibu, que estava no mesmo restaurante naquele momento.Muitos anos depois, monsieur Deschamps foi convidado para uma festa onde este pudim era servido como sobremesa. Enquanto o comia, ele comentou que a única coisa que faltava era monsieur de Fontgibu, que lhe revelara esta delícia e também estivera presente durante seu segundo encontro com o pudim, no restaurante em Paris. Naquele momento, a campainha tocou e um senhor idoso entrou, parecendo muito confuso. Era monsieur de Fongibu, que entrara ali, por engano, porque recebera o endereó errado para o lugar aonde deveria ir.(...)"

"(...) As observações de Jung acrescentaram outra dimensão incrível a este fenômeno já espantoso. Ele descreveu numerosos exemplos do que chamou de `sincronicidade` - coincidências impressionantes, nas quais diversos eventos da realidade consensual estavam ligados de modo significativo com experiências internas, como sonhos ou visões. Ele definiu sincronicidade como "uma ocorrência simultânea de um estado psicológico com um ou mais eventos externos que parecem ser paralelos significativos do estado subjetivo momentâneo". Situações desta espécie mostram que nossa psique pode entrar em uma interação dinâmica com o que parece ser o mundo da matéria. O fato de que algo assim é possível realmente turva os limites entre a realidade subjetiva e objetiva(...)".

"(...) As observações de sincronicidade tiveram um impacto profundo sobre o pensamento e o trabalho de Jung, partticularmente sobre suas idéias envolvendo os arquétipos, imagens primordiais e princípios organizadores do inconsciente coletivo. A descoberta dos arquétipos e de seu papel na psique humana representou a contribuição mais importante de Jung para a psicologia (...)."

"(...) A existência de eventos sincrônicos fez com que Jung percebesse que os arquétipos transcendiam tanto a psique quanto o mundo material, e que eram padrões autônomos de significado, que informavam tanto a psique quanto a matéria. Ele viu que os arquétipos ofereciam uma ponte entre o interno e o externo e sugeriu a existência de uma zona limítrofe entre a matéria e a consciência. Por esta razão, Jung começou a referir-se à qualidade `psicóide` (tipo-psique) dos arquétipos (...)".