Google+ Psicologia Transpessoal Aplicada: 2009

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Saude e Fenomenologia - Nichan Dichtchekenian

" (...) trata-se de trazer à luz que concepção de Homem se está construindo e aprofundando com o uso dos métodos, dos “caminhos para”, que as diversas teorias adotam(...)"

       Fenomenologia pode ser compreendida como o esforço de apreensão das formas de ser e, no caso das profissões ligadas ao Homem, como o esforço de apreensão das formas de conhecimento a respeito do Homem. Inicialmente, a Fenomenologia se constitui como uma atividade crítico-reflexiva, no sentido não de rechaçar esta ou aquela forma de conhecimento mas, ao descrever o que uma forma de conhecimento é, de situar seus limites e seu poder próprio de realização. Nas chamadas ciências do Homem, esta atividade crítico-reflexiva tem sido, desde Husserl, frequente, constante e muito fértil: trata-se de trazer à luz que concepção de Homem se está construindo e aprofundando com o uso dos métodos, dos “caminhos para”, que as diversas teorias adotam. A identificação desta visão de Homem que um olhar fenomenológico captura nas diferentes teorias, tem o sentido de, ao situar seu alcance e limites, oferecer à reflexão a oportunidade de perceber que o saber está umbilicalmente ligado ao modo, ao método (e técnicas) empregados, e, portanto: 1) novos métodos revelarão características inéditas do Homem e 2) há métodos (e técnicas) que são o caminho certo, adequado para revelar o Homem na sua particularidade; ele, o Homem, é peculiar e distinto dos outros entes, dos outros “seres”.   
No que diz respeito à primeira conclusão - novos métodos implicam em novos conhecimentos - , não há nem novidade, nem privilégio da reflexão fenomenológica. A história da cultura ocidental, notadamente dos últimos duzentos anos, é, também, a história de novos olhares, novas escutas que ampliam, diversificam, revolucionam o saber do Homem. Podemos dizer, aí, que as diferentes propostas teóricas, as diferentes inquietações de Homens dêsadaptados, inconformados e reflexivos criam rupturas no saber estabelecido e inauguram mundos inéditos.   Repetindo, isso não é privilégio do pensamento fenomenológico, é privilégio do pensar, de um pensar que muito frequentemente precisa de um isolamento, precisa renunciar ao bem-estar do pertencimento, precisa viver um mal-estar do diferente para poder enxergar novos aspectos da verdade do mundo. Na história ocidental tem sido muito freqüente esse movimento de ruptura e reinauguração do saber.
"(...) A história da cultura ocidental, notadamente dos últimos duzentos anos, é, também, a história de novos olhares, novas escutas que ampliam, diversificam, revolucionam o saber do Homem(...)"
            A segunda conclusão – há métodos adequados para irmos ao encontro do Homem, ele-mesmo – quer dizer que , se adotarmos método e técnicas comuns a diferentes âmbitos da realidade cognoscível, com certeza encontraremos um saber verdadeiro a respeito de todo esses âmbitos, mas perderemos a especificidade de cada um deles, especialmente a do Homem. Cada ente, cada “ser”, habita um lugar que é o seu no mundo; o lugar habitado pelo Homem é único – portanto, o modo, o método, o caminho para nós chegarmos até o seu lugar, até o lugar habitado pelo Homem é diferente dos outros caminhos.
       
            E que lugar é este? Que lugar é este que nós podemos chamar de casa do Homem no mundo?
            Ao irmos ao encontro da casa do Homem, ao lugar onde ele vive de uma maneira serena e feliz, podemos encontrar o sentido de ser mais próprio dele, em que ele nos mostra sua intimidade: o Homem é existir.

            A palavra existir é utilizada na terminologia fenomenológica resgatando o seu sentido original do latim: existir quer dizer, numa tradução livre para nós, ser para fora. Existir, por ser atribuído exclusivamente ao Homem, exige de nós um acompanhamento compreensivo muito delicado e atento, com uma consciência crítica muito presente e aguçada, para evitar uma contaminação por pré-conceitos, pré-compreensões, os quais estabelecem previamente um rumo para as conclusões quanto ao que é próprio ao Homem.

            Então, munidos de um interesse genuíno, vivo, quase infantil pelo Homem e, ao mesmo tempo, atentos às armadilhas inevitáveis nas quais caímos, por força de atribuições ao Homem de características que, embora pertencentes a ele, não o diferenciam de outros entes, percorremos o  caminho para , o caminho em direção ao Homem; temos aí o método na sua acepção original e própria: meta-odos = caminho para um lugar.

            Neste ponto, no ponto em que há uma articulação mutuamente implicada do interesse, da paixão, da atração com a consciência crítica, reflexiva alcançamos um novo momento da presença da Fenomenologia: ela não é mais, somente, consciência crítica, como fora nos seus primórdios, a partir de Edmund Husserl.
            A Fenomenologia, ao amadurecer como prática e aprofundamento reflexivo, percebe, e propõe claramente, que o que possibilita a consciência crítica, o que fornece à reflexão o próprio motivo de sua presença, é o comprometimento vivido pelo Homem.

            Então, Fenomenologia adquire um status de amadurecimento ao se apresentar, enquanto conhecimento, enquanto saber, como a adoção de um vivo interesse por algo e, simultaneamente, como uma crítica, não para refrear, amornar o interesse, mas para orientar, para estimular o interesse, a paixão, a manterem uma fidelidade ao caminho originalmente percorrido. Percorrer um caminho significa, fenomenologicamente, que eu já antevejo o lugar para onde vou. Na medida em que vivo o caminho, vou percebendo tudo o que à minha frente se mostra e aparece.

            A recomendação do trabalho fenomenológico é continuar esse caminho, percorrer aquilo que a percepção indica sem tirar conclusões que buscariam adiantar o que se vai encontrar. Isso constituiria um pré-conceito.

            O preconceito é um modo de nós lidarmos com a presença do ser através de um ente peculiar, que atenua, que suaviza, encobre o sentido original e inédito de ser deste ente e o envia a um sentido já conhecido, já dado e , portanto familiar a nós.

            No entanto, o sentido próprio e irrecusável de sermos homens – um modo peculiar de ser ente entre outros entes – é o de sermos espaço para que os outros entes sejam visíveis. Nós, humanos, somos um modo de ser peculiar de perceber e nomear o modo de ser dos outros entes, distinguindo-os como eles mesmos e os iluminando na sua especificidade.

            Dizíamos que existir, ser para fora, é o que caracteriza o Homem como tal, como Homem; não só no que ele é semelhante aos outros entes, mas no que ele é privativamente - existência.
            Se existir é “ser para fora”, quer dizer, inicialmente, que o Homem é disponibilidade para. Mas disponibilidade para o quê? Para tudo aquilo que o alcança, que o toca – então o Homem é sensibilidade, sensibilização. Disponibilidade quer dizer, também, que o Homem é abertura, isto é, o Homem é um ente, cujo modo de ser é ser tocado, provocado por algo (ou alguém) diferente de si, que, mesmo semelhante, como é o caso de outro Homem, jamais será igual a ele.

            A existência como abertura, como disponibilidade para o que não é, nem será igual a mim, para o que desperta a minha atenção, nos remete a mais um aspecto, que é o da transcendência – o Homem como abertura, disponibilidade, ser para fora é transcendência, é ir além de si, é verdadeiramente acolher em si o diferente de si, os outros entes, reais ou imaginários. E acolher, aqui, quer dizer testemunhar, nomear aquilo que, por força de sua própria característica inevitavelmente o toca, o chama para ser nomeado, para ser tirado do anonimato, do nada.

            Quando dizemos que o Homem é disponibilidade para, enquanto transcendência, queremos dizer: sem o Homem o que é o mundo? A possibilidade do Homem de nomear, acolher em si algo que não é ele e lançar-lhe uma luz faz com que aquilo que estava na obscuridade apareça. O ente responsável pela iluminação e pela identificação de tudo o que é, é o ente Homem. Ele não dá vida às coisas, ele as ilumina. Antes do Homem as coisas são apenas possibilidades de ser. Ser Homem, então no seu modo peculiar e próprio de ser, é ser a possibilidade de iluminar, de dar contornos significativos, nítidos aos outros entes e alcançar uma compreensão dos outros homens. Compreender outro Homem, fenomenologicamente, não é aceitar ou rejeitar o seu modo de ser, mas acompanhar e perceber a necessidade vivida pelo outro de ser como ele é.

            A tarefa do Homem no mundo junto aos entes, os reais e os imaginários, os palpáveis e os impalpáveis, a tarefa do Homem é ser esse espaço onde cada ente tem a oportunidade de adquirir consistência de ser, porque é percebido, é nomeado, é estudado, é abordado.
            Nossa tarefa é nos mostrarmos disponíveis para que os entes falem de si através de nós. 
            A propósito, o significado dos entes já é a presença deles. O significado que eu atribuo a cada ente mostra o ente na sua essência. O conteúdo do significado não me pertence. O que pertence a mim é a responsabilidade de acolher o ente e fazer com que a característica própria dele apareça através de mim. Os outros entes não são criação do Homem, eles existem por si mesmos, mas sem o Homem eles vivem no sem-nome. Nós somos testemunhas dos outros entes. O significado do ente é inesgotável porque ele vai surgindo de acordo com cada novo olhar que o visualiza, de acordo com cada nova iniciativa do Homem em relação a ele. Por isso, para a Fenomenologia o saber é inesgotável, o saber não é uma questão de tempo, como nós, Homens do século XIX pensávamos: epistemologicamente, nós achávamos que o saber era uma questão de tempo e de tecnologia, que quando a tecnologia fosse o mais apurada possível, haveria um esgotamento daquilo que se poderia conhecer, porque a natureza essencial do ente já estaria determinada. A determinação como objetivo de entrar em contato com o modo de ser essencial dos entes, inclusive o Homem, estabelece a verificabilidade e o manejo controlador como um modo de relação do Homem com os entes.

            Para a Fenomenologia, a inesgotabilidade do saber não é meramente uma petição de princípio, uma hipótese de trabalho conveniente para ajustar suas convicções. A inesgotabilidade é fundada na percepção e reflexão que encontram a verdade do ser na relação direta com um modo de ser do Homem que lhe serve de veículo. Assim, novos tempos, novas eras significam novas modalidades de abertura do Homem para com os entes e , com estas novas aberturas, novos sentidos de ser dos entes.

            As novas modalidades de abertura são, na verdade, experiências de um alcance transformador, revolucionário para o Homem que as vive. Trata-se de viver de um modo irresistível e angustiado, extremamente atraente e muito temerário o acolhimento, o contato com o novo, o terrivelmente novo, porque nos desaloja do nosso chão, da nossa familiaridade.
            A experiência de ser tocado e de ser ver e sentir transformando-se, abre, para cada um de nós, a oportunidade de ser testemunha e protagonista de um novo tempo, de uma nova vida.
            Quando toda uma geração vive pessoalmente esta experiência nova e irreversível inicia-se a maturação e o preparo de uma nova era, de uma nova época. Aliás História não quer dizer simplesmente o recenseamento dos fatos e datas escolhidos arbitrariamente, mas significa o rompimento dos valores e das práticas de uma época e a inauguração e renovação de um novo modo de viver e de presença do Homem, o que resulta no desvelamento, no desencobrimento de aspectos inéditos do mundo e dos homens.

            Cada Homem, na sua singularidade distintiva, naquilo até que o constrange frente aos outros, porque ele pode ser diferente, desajustado, errado, desajeitado, cada Homem vive a tarefa de acolher em si, de um modo original e único, aquilo que os outros entes lhe trazem: a sua presença. Pelo acolhimento da presença dos outros entes, cada Homem ilumina, dá transparência e nome, oferece a estes outros entes a oportunidade sagrada deles poderem ser, porque foram testemunhados, nomeados, iluminados no seu aparecimento. Porque existir é ser transcendência de si, abertura para o outro, nomeação de tudo que é, podemos compreender, isto é, conhecer o modo próprio de ser do Homem. Compreender é alcançar a absoluta especificidade de um modo de ser distinto do seu. É viver o contato com o modo de ser íntimo de cada Homem.

            Esta concepção de Homem propicia algumas reflexões em relação à saúde.
            Os profissionais da saúde professam e aceitam a responsabilidade de acolher, de receber, de estar abertos a outros Homens que vêm ao seu encontro à procura da restauração, ou da melhoria da saúde, porque vivem a ameaça de não mais ser.
            Esta relação, culturalmente e, portanto, humanamente estabelecida entre profissionais da saúde e pessoas que deles necessitam é uma modalidade, uma das maneiras pelas quais se dá o existir do Homem como disponibilidade para outros entes: o profissional da saúde é aquele que, por sua peculiar e própria maneira de estar aberto a, cria um espaço para ser ocupado pela pessoa em busca de saúde, que encontrará aí, neste espaço de acolhimento e escuta que é o profissional, a oportunidade de se enxergar, de se perceber de uma maneira clara.

            Todo o aparato tecnológico nascido de séculos de pesquisa e inquietação, está simplesmente a serviço de aperfeiçoar o instante de percepção vivido pela pessoa aflita com sua saúde.
            Se compreendermos enxergar e perceber como singelos e prosaicos momentos de satisfação e apaziguamento das aflições, nosso trabalho como espaço de disponibilidade estará muito medianamente estabelecido.
            No entanto, se nos aprofundarmos no sentido existencial desta busca de percepção, compreenderemos que ela é fundamental como ato, vivido por cada Homem, de busca do sentido do existir mesmo. Além disso, o existir, no que nos diz respeito como profissionais da saúde - disponibilidade para com os outros - é o que oferece a tranqüila certeza de um sentido de ser por nós mesmos e preenche o nosso existir de uma única e insubstituível presença para aqueles que nos procuram.

            Isso significa também que nós profissionais não somos uma presença onipotente em relação às pessoas, somos aqueles que, frente ao sofrimento somos chamados a nos interrogar a respeito de nós mesmos. A nossa afetabilidade em relação ao sofrimento do outro nos torna mais verdadeiramente presentes na existência dessa outra pessoa.

            Na Fenomenologia, há, além disso, uma palavra que sintetiza a natureza deste contato entre duas pessoas que vivem, cada qual a seu modo, a saúde; ela é denominada cuidar.
            Cuidar, fenomenológico-existencialmente, quer dizer se ocupar e se preocupar em oferecer àquele que está sendo cuidado as condições para que ele desenvolva, faça crescer as suas genuínas e autênticas maneiras de ser. Cuidar ou curar é cultivar as condições para que um Homem possa encontrar a sua maneira mais própria de ser Homem. A saúde, sob um ponto de vista existencial não é só o quanto meu organismo é supostamente saudável, mas o quanto a minha mobilização como pessoa, no meu existir, tem um sentido para mim.

            A pessoa que vive um momento terminal da sua vida, vive uma oportunidade que se impõe e é primordial para ela. Ela tem a oportunidade definitiva e fundamental de interrogar-se a respeito de sua própria existência, daquilo que sempre lhe é caro, daquilo que ela realizou. Tomar posse do sentido de suas decisões, de suas hesitações e de seus fracassos, dos seus amores e de suas indiferenças é um ato sagrado de apropriação do seu existir.
            Portanto, cuidar de alguém não é ter como ponto de chegada um modelo de saúde que nós, como profissionais, elegemos ou elegeram por nós; os modelos de saúde não são errôneos ou equivocados como propostas, mas pecam por se constituírem em únicas e exclusivas referências de bem-estar.

            Nossa tarefa como profissionais da saúde é oferecer à pessoa que nos procura, através do nosso respeito e acolhimento, a oportunidade dela se liberar para cuidar verdadeiramente de si-mesma, se constituir como vida, numa serena e obstinada busca de um sentido de ser.

            Ser uma pessoa saudável, na plenitude da sua possibilidade mais própria de ser, é ser alguém que é mobilizado pela procura de um sentido de ser.

Instante: Essência do Tempo - Nichan Dichtchekenian

Ao voltarmos nossa atenção ao tempo, podemos perceber aí uma característica inerente, própria a ele. Esta característica nós a encontramos como ritmo.


Ritmo e tempo. Tempo e ritmo. Tempo é ritmo.



Sem ainda um olhar e uma reflexão aprofundada, vamos considerar, como ponto de partida, que tempo é ritmo.



E se é ritmo, imediatamente vamos constatar que há muitos ritmos, talvez, infinitos ritmos.



Há infinitos tempos?


Mantendo essa pergunta suspensa, vamos nos dirigir para um outro desdobramento desta noção de tempo como ritmo: há ritmos, há tempos que são comuns aos homens. O tempo comum, compartilhado pelos homens é, sem dúvida, aquele dos anos, dos dias, das horas, das estações. O tempo compartilhado se refere a uma dimensão da existência dos homens em que cada um de nós encontra-se lançado no viver segundo as referências de todos os homens; cada um de nós, neste “tempo do relógio”, neste “tempo comum de todos e do mundo”, vive e é como todos os outros.



Ser-como-todos-os-outros não nos lança necessariamente na alienação do que é próprio, do que diz respeito a cada um; cada um de nós, no tempo, no ritmo de ser como todos são pode viver, também o encontro, a comunhão, o compartilhamento.


As atividades vividas pelos grupos de pessoas a propósito de comemorações, de decisões, de discussões, não se constituem, a princípio, de acontecimentos de massa, mas acontecimentos em que cada homem é convidado, algumas vezes convocado, a se colocar a respeito de questões que afetam o grupo do qual ele faz parte.
Daí, nós podemos designar estes acontecimentos vividos por grupos de homens como indicadores de um tempo: é tempo de decisão, é tempo de comemoração, é tempo de dançar, é tempo de lutar, é tempo de trabalho, é tempo de descanso.



No entanto, há ainda uma compreensão em relação ao tempo, (e quando dizemos compreensão queremos indicar a natureza essencial de algo) que está presente nesta noção de tempo como momento dos homens compartilharem algo em comum, e que, além disso, serve como suporte, como sustentação para o compartilhamento, e que não está explicitado, não está percebido, nem plenamente compreendido por nós.
Quando dizemos (e vivemos) um tempo de decisão, um tempo de dança, um tempo de trabalho estamos em contato com um acontecimento – decidir, dançar, trabalhar – que se inicia, num dado momento, e que cada um de nós vive na singularidade e particularidade solicitadas pelo acontecimento.



Então, dançar, decidir, trabalhar são modos-de-ser que cada um de nós vive, só ou com os outros, e, por ser modo-de-ser, nos transforma inteiramente no dançarino, no trabalhador; somos, aí, o humano dançarino, o humano trabalhador em que cada um deles constitui uma maneira.



Dançar, decidir, trabalhar, são acontecimentos que irrompem como únicos, como marcantes e que dominam e predominam em nossas vidas enquanto estiverem presentes.



Ao dizermos, então, que é tempo de dança, tempo de trabalho estamos subentendendo dois outros aspectos do acontecer da dança, do trabalho, da decisão: a de que eles irrompem e interrompem, fraturam um outro modo de viver e nos transformam inteiramente naquele que dança, que decide, que trabalha:



É tempo de trabalho, é tempo de dança, não é uma convocação externa, formal e artificial; pede, de cada um, o se transformar, o se permitir que brote e se desenvolva em si o modo-de-ser do trabalhador.
Dizer que tempo, então, é a irrupção de um acontecer próprio e único e que tempo é, também, a consolidação deste acontecer como modo-de-ser, este dizer do tempo nos convida, nos obriga a novas interrogações: 1) como a irrupção é vivida pelo homem; que implicações ela traz a ele; o que afinal, vive o homem ao ser o protagonista de uma irrupção, de um novo tempo, de um outro tempo. 2) como se dá a instauração da nova possibilidade de ser irrompida? É uma questão de repetição? O que quer dizer, na verdade, repetir? Repetir é estabelecer um hábito? Hábito é a transformação de novo em conhecido? Conhecido é o automático, o familiar? Mas o automático, o familiar, o já-aí-dado e sabido é plenamente compreendido na sua naturalidade?


Ao nos voltarmos para compreender a irrupção de algo novo para o homem, vamos na verdade compreender, simultaneamente e com toda clareza, a condição de ser homem e o quer dizer tempo na sua essência, já indicada como irrupção: o homem, ao ser lançado no novo, viver a importância de poder ser quem sempre foi, o que nada lhe valem os recursos acumulados até então e, a ansiedade, a expectativa, a angústia do novo, do desconhecido que lhe vem ao encontro e em relação ao qual ele se vê voltado para receber, mas este momento, este instante de viver o novo, o futuro na acepção própria da palavra, não se esgota num mero acontecimento emocional, psíquico, sem valor existencial. Na verdade, é a dimensão existencial do viver o novo tempo, o novo modo-de-ser que necessitamos explicitar: viver o novo tempo, se abrir ao futuro é, inevitavelmente, é necessariamente deixar-se morrer para o modo-de-ser habitual e permitir-se viver, na solidão e no desamparo a fé de que é possível ser, propriamente, verdadeiramente, realmente aquele que o vazio, o nada, o ainda-não-ser anuncia.



Devemos, agora, observar alguns aspectos deste momento da existência que designamos como novo, como futuro, como tempo.



O confronto do homem com o nada e o inevitável, às vezes lento, reenvio dele para uma possibilidade de ser que se anuncia e que o convida, às vezes, inicialmente, o ameaça, não se constitui, este confronto num momento, excepcional, raro, extraordinário no existir.



Viver, enquanto existir, enquanto ser, como homem, uma aventura, uma disponibilidade, uma inevitável condição de se sensibilizar com aquilo que não é ele mesmo, implica estar mergulhado no encontro com o diferente de si, na convocação de ser tocado e ser chamado a conhecer, a explorar, a nomear o que se apresenta, e que, por isso, faz do homem, como existir, ser angústia. Mas por que esta situação de nomear, portanto, de acolher, de receber, de conter em si é angústia? Porque angústia é viver a ameaça de não-ser si-mesmo, homem.


Então, ser homem é ser chamado, “de dentro”, a receber o diferente de si, como tarefa de iluminar, com a luz do interesse e do entendimento, o sentido de ser daquilo que não é ele-mesmo. E mais.


Que o ser homem, ele-mesmo, só tem sentido, não como prescrição, mas como condição aí na tranqüilidade e na segurança de poder-ser, ao se colocar, ingenuamente, incompreensivelmente, sensível ao apelo do que parecia estar esgotado no sentido de ser, e que o desperta para um novo olhar, desafiador, solicitador.



E, tempo, então, não é simplesmente, o registro, pontuado, dos fatos lá, no além, numa régua plana e uniforme, mas, é a inesgotável, a imprevisível explosão de possibilidades de ser, que nós homens, para angústia e espanto nossos, somos destinados a protagonizar.



Tempo é ritmo, sim. Mas não é ritmo só conhecido e instituído. É ritmo por nascer; por nascer e ser oferecido por cada um de nós que vive a angustiosa experiência de escutar e acolher o novo sentido de ser de algo, de alguém, de nós mesmos.


No entanto, como dar conta deste enorme e inevitável variedade de “tempos” que nossa condição de homens vive?


Cada um de nós, como homem, está destinado a viver o impacto do novo, a ser convocado para anunciar este novo aos outros homens e viver a enfadonha tarefa de transmitir a boa nova.


Bem, porque um novo tempo nos implica inteiramente, no sentido em que sem a nossa completa adesão, a transformação é falseada e não se dá, para que nos tornemos um lugar em que um modo-de-ser nosso se consolide e, portanto, um novo sentido de ser do mundo se mostre através de nós, é preciso insistir.

Mas o que quer dizer insistir e por que insistir é o caminho para a consolidação de um novo sentido de ser, de um outro sentido, da verdade em suas infinitas faces, mas sempre, e a cada vez, a verdade absoluta?


Insistir. A palavra insistir, nos seus ecos longínquos que nos alcançam, a nós que a cada momento de iluminação do sentido de ser, queremos nos poupar desta tarefa angustiante e, desta tarefa que nos atrai e nos hipnotiza, a palavra insistir já carrega na sua constituição o seu sentido: ser em direção a uma interioridade, ir em busca da constituição de algo em si mesmo; assim como existir indica ser, estar voltado para fora, sensível a tudo que não é si-mesmo.


Nós, homens, seres do existir e, por tal condição, na possibilidade iminente de sermos, nós homens, o que não somos em nós - mesmos, mas abrigo humilde dos “outros” seres, exatamente por sermos existência somos sensíveis à insistência.



Existir não é disponibilidade para tudo. Não é sensibilidade para qualquer coisa.
Cada um de nós porque nasce e, portanto, eclode e funda um novo tempo, um tempo que é novo porque anuncia, pela presença de cada um, uma peculiaridade de ser, existe, isto é, permanece aberto e sensível de uma maneira especial, específica: nos momentos em que somos abertura medrosa encobrimos o sentido de ser do que nos toca considerando-o já conhecido, considerando-o como “nada mais do que...”; nos momentos de abertura, de disponibilidade nos mobilizamos para escutar o que o ser nos diz através de um ente.



Este escutar faz o nosso existir ser uma insistência, ser um aprofundamento da tarefa de recolher todos os elementos que o ser sussurra para cada um de nós.


Insistir, então, é repetir, é pedir novamente que aquilo que é se mostre e para que nós possamos compreendê-lo, quer dizer, que nós possamos chegar até ele.



Mas esta compreensão não se dá por acaso: como já dissemos, nossa abertura, nossa sensibilidade acontece, sempre, de uma determinada e específica maneira – porque nascemos aqui e não lá, porque somos homens e não mulheres, porque somos desta família e não de outra – e esta nossa condição nos leva necessariamente a elegermos, a sermos tocados e chamados por determinadas pessoas, certas situações, certos eventos.


Até aqui, chegamos a uma situação que torna a articulação existir – insistir – sensibilidade e compreensão – um processo, no fim das contas, pré-determinado, pré-estabelecido: o nosso nascimento, a nossa eclosão, aparentemente anunciada de uma renovação, de uma revolução, parece estar a serviço de uma herança, nos situa antecipadamente num certo modo de existir e de se afirmar.


O tempo, esta explosão surpreendente de um novo modo-de-ser, que anuncia a promete um novo mundo, parece se resumir a um instante isolado, extemporâneo, sem desdobramentos.



Aliás, na sua constituição original, o tempo é instante: único, sem passado, sem futuro. Uma expressão direta de descontinuidade.

E o que faz com que cada um de nós viva, numa relação superficial e pouco reflexiva, uma percepção de que o tempo é, pelo contrário, continuidade e duração?


A continuidade, a duração são, também, características do tempo. No entanto, elas são expressões de um duro, laborioso, angustiante processo de insistência.



A insistência, como vimos, é o interesse, no existir de cada um, em eleger uma direção de vida e certo aprofundamento na vida.



A continuidade, a duração, a permanência se constituem não porque cada um de nós herdou e está reproduzindo certo tipo de presença no mundo com as coisas e com os outros; se fosse assim, se a permanência, a duração acontecessem como resultado de uma repetição automática, se insistir fosse retornar a cada vez como um automático, a relação do homem com a sua obra seria superficial, frágil e não vivida por ele como uma conquista de trabalho.


Um modo-de-ser, uma obra, uma vida estão aí e de certa forma permanecem porque o insistir é, a cada vez, a convocação, como se fora a primeira vez, que chega a nós de reconstruirmos o que já fora construído, de redescobrirmos o que já fora descoberto, não só porque esquecemos como se constrói, perdemos os caminhos da descoberta, nos acomodamos no já conquistado, mas porque nós, o mundo e os outros somos diferentes a cada momento, pedimos a nós mesmos para sermos escutados de um novo modo, porque, apesar de sermos os mesmoscontinuidade constituída a partir de uma descontinuidade original e essencial - somos, sempre, um pouco diferentes, as transformações nos atingem, os instantes nos assaltam, a nós, homens, mundo e acontecimentos.


Insistir não é apenas uma característica derivada de uma herança e que nós, homens, devemos carregá-la (ou nega-la) como um fardo, no mínimo, incompreensível.


Ao sermos aqueles que se constituem como continuidade, como permanência pelo insistir, ao sermos aqueles que constituem uma obra – permanência de um sentido, de um modo-de-presença – conquistamos, não definitivamente, mas com confiança, um habitar. A angústia de nos sentirmos ameaçados pela precariedade dos instantes – que são insensíveis aos nossos apelos de permanência e de continuidade – esta angústia, não é eliminada, mas recebe lufadas de tranqüilizarão exatamente quando tornamos nosso um lugar de insistência: um lugar de insistência, que nasceu por herança, alienado de nós, transforma-se em nosso lugar, em nossa casa. Habitar é tornar um lugar anônimo e perdido em nossa casa; habitar é viver um lugar como seu – acolhedor e íntimo; seguro e conhecido. E hábito, então, é habitar um modo-de-ser, de tal maneira que o hábito não necessita de nossa atenção – ele já é nosso; ele já é nós.



Assim, ao vincularmos o tempo ao homem estamos sugerindo alguns sentidos a ele, tempo, que vamos ressaltar, para terminarmos a nossa comunicação.


Tempo não é só dos homens. Tempo é uma dimensão própria, inerente a tudo que é, inclusive o homem.



Mas é só no homem que o tempo adquire uma peculiaridade! Cada um de nós, homens, por não poder ser igual aos outros homens, inaugura, pelo simples fato de estar-aí, m novo tempo, quer dizer faz do tempo uma realidade: a transformação, a ruptura, definitiva, irreversível. Porque, agora podemos contatar e afirmar: sem transformação radical (pela raiz), sem mudança irreversível não há tempo, há eternidade.


Os outros “seres”, os outros entes vivem um tempo que é único e permanente; por tal peculiaridade, podemos, de certo modo, dizer que os outros seres são eternos – porque não vivem o tempo – se constituíram de um certo modo, numa certo ritmo de ser e se mantém como tal – não há, neles, uma transformação.


Com o homem, o tempo tem um lugar próprio e inerente a ele: porque existir é conquistar, a cada momento, um modo-de-ser, uma segurança de ser, o tempo é a expressão mesma destas conquistas que fazem do homem um ser a se constituir, um ser que tem na transformação uma dimensão essencial.

Sobre a Psicoterapia

Sobre a Psicoterapia – Antonio Vaszken

Muita gente quando ouve falar em psicoterapia pode imaginar erroneamente uma situação onde alguém está prestes a ficar desequilibrado mentalmente, ou alguém precisa ser controlado na agressividade, na desobediência, rebeldia, ou ainda tornar alguém capaz de seguir um tipo de padrão. Ninguém está na vida para ser controlado, dirigido, impedido de ser livre, ou posto num lugar onde não lhe pertence.

Na verdade, vivemos nossas vidas durante muito tempo sem ter a noção daquilo que estamos sentindo, de quais coisas gostamos, do por quê precisamos de algumas relações, ou por quê não nos sentimos do jeito que achamos que deveríamos.

Isso acontece por estarmos olhando para nós mesmos a partir de um referencial comparativo, e meramente externo, onde esperamos encontrar respostas sobre essas perguntas em outras pessoas – nos amigos, pais, família, colegas – ou na cultura, quer seja observando comportamentos de outros grupos, ouvindo falar como deveriam ser as coisas, etc.

Essa maneira de ver é baseada no senso comum, onde as pessoas devem se comportar de uma maneira correta ou normal. Em geral, vemos que não somos nós quem temos problema, são os outros que não atendem às nossas expectativas.

A psicologia tem várias linhas de pensamento e métodos de trabalho como a Psicanálise, Cognitivo Comportamental, Existencialista, Transpessoal. De uma maneira geral, são baseadas em visões de ser-humano e de saúde. Essas visões, que podem ser parecidas ou distintas entre si, formam a base que o psicólogo se utiliza para tratar os pacientes. Tais fundamentos, e mais o treinamento que se tem para lidar com o discurso e as questões da vida dos pacientes, já servem como auxílio para que possa ocorrer um processo de auto-conhecimento.

Apesar disso, muitos pacientes (ou clientes, como alguns costumam chamar) ainda questionam os psicólogos quando estes são ou parecem ser muito novos, e portanto, segundo o senso comum, inexperientes na vida e supostamente incapazes de cumprirem com a função de ajuda.

Trata-se de compreender que tal situação de profissional jovem não necessariamente implica em incapacidade, pois a competência profissional não depende exclusivamente da experiência de vida pessoal, mas sim do treinamento e formação que se obtém durante a faculdade e cursos de aperfeiçoamento.

O senso comum não se aplica dentro do contexto terapêutico, ainda que ele esteja presente em questões pessoais do paciente. Porém, o psicólogo é treinado a não seguir esse senso comum, que diz aquilo que a estatística ou as médias populacionais dizem a respeito do que é normal ou do que não é normal.

Ele tem como base outros fundamentos que dizem respeito àquilo que mais se aproxima da realidade psíquica dos pacientes, ou seja, do ponto de vista dos pacientes a respeito da sua própria existência. De uma maneira resumida, o que faz com que nos comportemos de uma ou de outra maneira é como vemos e compreendemos a nós mesmos e o mundo que nos rodeia. O psicólogo tem uma função terapêutica de compreender como é a visão de mundo e de si mesmo do seu paciente, sem julgamentos, sem dizer se ele está certo ou errado.

Por exemplo, se uma paciente tem dificuldade de relacionamento com os pais, onde eles vivem criticando suas escolhas e atitudes, e ela vive se queixando da cobrança deles, etc, o senso comum diria o que? Que uma das pessoas está errada, que ou os pais devem mudar, ou a pessoa deve mudar, pois alguém ou alguma coisa está errada. Então, é preciso mudar o comportamento, ou dar alguns conselhos para fazer com que o paciente mude de atitude, mude de valores. Ou então ajuda-lo a conviver com os pais de uma maneira mais realista.

Saindo do senso comum, o psicólogo não julga e não critica, e só isso já é uma grande coisa, pois o paciente não se sente cobrado, e pode perceber se ele mesmo não está se julgando e criticando, mais até do que os outros possam estar fazendo. Um dos objetivos mais importantes, senão o mais importante da psicoterapia, é fazer cada pessoa se sentir e saber que é responsável por sua própria existência. Nesse caso específico citado, o paciente precisa escolher o que ele quer fazer da sua vida, se ele vai continuar dependendo dos pais, da opinião deles, descobrir do que ele gosta e o que quer para que sua existência seja mais plena e completa. Por que, por exemplo, ele escolheu usar drogas? Será que as drogas são a única coisa boa na vida, ou existem outras maneiras de se sentir bem consigo mesmo? Será que suas relações não estão fazendo com que ele se afaste das pessoas, por motivos pessoais? É assim que costuma trabalhar um terapeuta em um caso como este. Fazer a própria pessoa perceber todos os aspectos da sua vida, de que maneira a pessoa se coloca nas diversas situações da vida.

A função de tentar controlar a vida dos outros não é saudável para nenhuma das partes. Talvez durante a fase onde a criança precisa de modelos a seguir, precisa que lhe digam o que é certo e errado, o que fazer em certas situações, isso possa ser um tipo de controle. Depois, o que acontece é que cada pessoa passa a ser controlada por seus próprios pensamentos, crenças, condicionamentos, e nem sempre percebe-se responsável por sua própria maneira de viver a vida.

O paradigma, ou modelo que se tem no senso comum é o de controle: controle de si mesmo, controle da vida, controle dos outros, em alguns casos. Os pais querem controlar os filhos, fazer com que eles sejam mais educados e inteligentes, que estudem mais, e prestem atenção na escola. Alguém que nunca fez terapia antes quando criança, e chega num consultório de psicologia em idade adulta, cheio de dúvidas e questionamentos, pode sentir em algum momento que será controlado pelo terapeuta, ou sem perceber pode tentar controla-lo. Ou então quem chega com um problema específico, quer uma resposta e solução rápidas, quer saber como controlar o próprio comportamento, os sentimentos, as ações.

Essa visão de controle que existe no senso comum e na vida cotidiana não se aplica dentro dos consultórios, mesmo nos casos onde seja exigido um rigoroso acompanhamento do paciente, em casos de álcool e drogas, ou em compulsões e estados emocionais patológicos graves. O que existe é um acompanhamento rigoroso, que leva em conta cada movimento, comportamento, pensamento, para que assim o paciente possa perceber clara e mais facilmente tudo o que acontece com ele, e tenha mais oportunidade de escolher mudar.

Finalizando, gostaria de deixar clara a distinção entre a maneira pela qual se vive no dia a dia, que é uma maneira onde o controle, o julgamento, o medo e o engano podem estar presentes. E a maneira de estar presente no consultório de um psicólogo ou terapeuta, que não julga, não controla o comportamento do paciente, não usa o medo ou o engano como motivação para o paciente. Busca a autenticidade, ser verdadeiro consigo e com este, tentando esclarecer tudo o que se passa dentro de cada pessoa que está na sua frente.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ESPIRITUALIDADE

Ser-Humano e Robôs

Hoje em dia não usamos muito o termo "robô". Tal palavra era usada nos anos 60 ou 70, e acredito que até um pouco depois. Hoje em dia ouvimos "ciborgue", que significa "cybernetic organism" ou organismo cibernético, no caso de filmes como "Exterminador do Futuro". Atualmente já se trabalha com o conceito de Inteligência Artificial, que é uma realidade concreta, cada vez mais avançada. O quociente de inteligência de tais máquinas vai aumentando a cada ano. Enquanto os cérebros eletrônicos não forem construídos e montados de maneira semelhante ao nosso cérebro humano, principalmente levando em conta a estrutura neuronal, parece que não temos muito com o que se preocupar. O sistema binário de zeros e uns ainda é distante do sistema neuronal e de redes com o qual nosso cérebro parece funcionar.

Conforme a visão a respeito do futuro e da própria realidade social e tecnológica vai mudando, menos otimista é a perspectiva. Fazemos os robôs e cérebros eletrônicos à nossa imagem, ou seja, procuramos replicar a nossa maneira de pensar, perceber e compreender o mundo aplicada às criaturas robóticas e às criações de inteligência artificial. O computador é uma tecnologia atualmente interativa, e mesmo que não tenha inteligência do mesmo grau da humana, é uma tentativa de criar um espaço interativo e inteligível sem a necessidade da presença de outro ser humano.

Sendo a inteligência artificial (IA) uma criação humana, projetamos nela as nossas inseguranças, pensamentos e maneiras de perceber o mundo. No caso específico da relação IA x Homem, o que percebemos? A IA é vista pela ficção científica e pela ciência de cunho mais crítico uma grande ameaça à própria humanidade. Já estamos esperando que chegue o dia em que as máquinas e robôs substituam os humanos nas decisões corporativas. Já se observa uma subtituição de trabalho humano braçal por trabalho robótico em fábricas e em processos de produção em série, por exemplo. O ser humano não é mais páreo para o computador no xadrez, o campeão mundial de xadrez perdeu várias partidas para um supercomputador. Será que teremos também uma revolução dos robôs contra os humanos, como visto no filme “Exterminador do Futuro” ou “Eu, Robô”?

Se continuarmos a nos relacionar com a natureza, nosso criador, seja ele o que for, de uma maneira destruidora, é altamente provável que também estaremos criando seres que sejam capazes de nos destruir, como máquinas altamente inteligentes e perigosas.

Alguma alternativa menos ameaçadora à vista? Sugiro uma mudança na consciência humana. Se cada vez mais pessoas puderem enxergar que somos criaturas criadas por uma força criativa, e pararem de tentar controlar e lutar contra tal força, de uma maneira imatura e mesquinha, é possível que, além de melhorar a condição do nosso planeta, também enxerguemos a IA de uma maneira bem menos ameaçadora, dando a ela uma finalidade cooperativa e não meramente competitiva. Para isso é preciso enxergar o mundo, os outros e a natureza de uma forma diferente da que é vista agora pela ciência contemporânea.

Da mesma forma que a espiritualidade assume que existe uma forma de consciência superior presente em todas as formas de vida, e que o ser humano é uma criatura de tal forma superior, e nem por isso precisa controlar totalmente todas as características e qualidades manifestas e potenciais, mas sim respeitar o vasto campo de habitantes mundanos; então podemos construir, programar inteligências artificiais com leis semelhantes.

As 3 leis da robótica, de Isaac Asimov já deu uma grande contribuição nesse campo.

Abaixo, as 3 Leis da Robótica, da Wikipedia:
" As Três Leis da Robótica são leis que foram elaboradas pelo escritor Isaac Asimov em seu livro de ficção I, Robot ("Eu, Robô") que dirigem o comportamento dos robôs. São elas:
  • 1ª lei: um robô não pode fazer mal a um ser humano e nem, por inacção, permitir que algum mal lhe aconteça.
  • 2ª lei: um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, excepto quando estas contrariarem a primeira lei.
  • 3ª lei: um robô deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis.
Mais tarde foi introduzida uma "lei zero": um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inacção, permitir que ela sofra algum mal. Desse modo, o bem da humanidade é primordial ao dos indivíduos.
A chamada lei zero, porém, tem o sério problema de transferir ao robô o poder (possibilidade) de avaliar, diante das situações concretas, se o interesse da humanidade se sobrepõe ao interesse individual. Tal possibilidade abre uma perigosa brecha para a ditadura das máquinas, que elegeriam por si qual é o bem maior, sendo-lhe permitido, inclusive, fazer o mal a um ser humano (indivíduo), caso entendam que isso é melhor para a humanidade. Por essa razão, a chamada lei zero da robótica é questionada e sua existência não é um consenso."

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Psicologia Transpessoal e Stanislav Grof

A Psicologia Transpessoal visa integrar os conceitos da ciência ocidental com as filosofias orientais. Considera a espiritualidade um aspecto fundamental do humano, sem a qual pode-se viver de uma maneira bastante doente, tanto individual quanto coletivamente.

De uma maneira geral, o que a Transpessoal tem a trazer de novo é uma noção de que o ser humano é multi-determinado. Não somos apenas aquilo que a nossa história pessoal nos moldou , nem somos apenas o que o ambiente nos condicionou. Também não somos apenas seres que tem instintos, valores, crenças, razão e emoção, e que vivem numa luta constante em busca de equilíbrio. Somos tudo isso, sem dúvida!

Somos também seres que estão ligados a uma inteligência ou consciência muito maior e mais complexa do que a humana. O que também nos determina ou influencia é uma ligação com essa consciência. Tal conexão não é condicionada por nossa criação ou educação. A ausência de sentimento de tal conexão pode levar uma pessoa a se tornar viciada em substâncias tóxicas, em comportamentos obsessivos, a ser extremamente ansiosa, entre outras coisas.

Fazemos parte de um contexto maior do que o humano. Somos parte de um ecossistema de seres que também são dotados de consciência, como os animais, plantas, processos físicos e químicos dos quais muitas vezes não temos o conhecimento de como ou por quê acontecem. 


Essa visão ampliada está cada vez mais se mostrando verdadeira e cientificamente comprovada, ao mesmo tempo que modifica ligeiramente aquilo que se entende por rigor científico. Aquilo que antes era considerado impossível de ser replicado, atualmente é mais aceito de ser incluído na lista do que se compreende como Ciência. Por exemplo, experiências místicas ou religiosas com potencial curativo, e integrador. Estudos sobre paranormalidade, levando em conta aspectos qualitativos, que ultrapassam e ampliam a zona de normalidade previamente estabelecida.

Espiritualidade não é o mesmo que religião, não segue doutrinas e não necessita de templos. Seus parâmetros de saúde e bem-estar são ampliados, no sentido de ver o ser humano um ser capaz de se auto-realizar e ter acesso a experiências transcendentes, profundas e transformadoras.


A seguir alguns conceitos da visão transpessoal de Stanislav Grof: 
 
A consciência não se restringe ao Ego e ao inconsciente individual, não é restrito as experiências pessoais e fantasias inconscientes. Existem também os Domínios Perinatal e Transpessoal. Todos esses domínios são acessíveis a qualquer pessoa sem o uso de drogas, a partir de técnicas de meditação, de práticas de alteração de consciência. 


Tais domínios não seguem uma ordem linear rígida. Metaforicamente, cada nível representa uma oitava musical de causalidades, daquilo influencia o modo de estar no mundo. Nem todas as causas se restringem ao dominio biográfico, à história pessoal. Existem também causas perinatais e transpessoais, que operam ao mesmo tempo que as causas biográficas, a todo momento na vida das pessoas, não apenas em estados ampliados de consciência. Porém, a transformação e cura da consciência só acontece em estados ampliados da categoria holotrópica.

Há dois modos de consciência: Hilotrópico e o Holotrópico. Ambos são importantes e essenciais, nenhum é preferível em detrimento de outro.

O hilotrópico é o modo orientado para a matéria, a realidade material, tempo e espaço determinados na ordem cronológica, espaço tridimensional, corpo físico biológico. É a realidade vivida no cotidiano.

O modo holotrópico é um modo orientado para a totalidade, transcendência dos limites espaciais, temporais, de identidade individual. É a realidade experimentada nos estados ampliados de consciência, onde pode se vivenciar alteração da temporalidade (alteração da duração do tempo, expansão ou retração, voltar ou avançar no tempo), da espacialidade (expansão ou retração, perda de limites) e da identidade (identificação com outras pessoas, parentes próximos ou distantes, pessoas em outras épocas e lugares, identificação com arquétipos, entidades e seres de outras realidades, identificação com outros seres vivos - animais, vegetais e minerais, identificação com fenômenos da natureza, processos biológicos, consciência dos processos biológicos do próprio corpo de maneira precisa). 

Uma característica dos estados holotrópicos de consciência é que podemos experienciar do ponto de vista subjetivo aquilo que, no estado hilotrópico, são percebidos de maneira objetiva. Por exemplo, somos capazes de termos a experiência de sermos um animal, algum tipo de planta, um membro de outra cultura distante no tempo e no espaço, do ponto de vista deles. Nos tornamos e nos identificamos, sabemos e sentimos exatamente como é ser tal ente do mundo. 



Uma vida exclusivamente holotrópica pode ser um problema, as barreiras individuais podem se mostrar ilusórias, podemos nos identificar com outras coisas e pessoas (que no modo hilotrópico são vistas como objetos, mas no holotrópico são vivenciadas como sujeito), podemos perceber o tempo expandido ou retraído, o espaço alterado, podemos ficar muito mais sensíveis às situações e às outras pessoas. Ficamos incapazes de nos concentrarmos nas preocupações materiais, nas responsabilidades cotidianas, na rotina, até mesmo em nos alimentarmos ou nos lavarmos.

Viver apenas no modo hilotrópico significa viver uma vida sem muito sentido, pois nos vemos como seres que nascem, vivem, se alimentam, relacionam, trabalham e se reproduzem e morrem. Vivemos num mundo exclusivamente material, a consciência é mero produto do cérebro, de reações químicas e alterações de substâncias no corpo. Podemos lembrar do passado com relativa facilidade, planejar e fantasiar sobre o futuro, e estarmos presentes. Mas o tempo costuma ser uma mudança constante: o presente se tornando passado e do futuro se tornando presente. 

O importante é haver um equilíbrio entre os dois modos, saber estar com um pé em cada modo, alternar entre eles. Ficar preso ou estático em apenas um dos modos é estar doente. Estar preocupado apenas com as coisas materiais, possuir, consumir, arrumar, organizar, ganhar e acumular, por exemplo, pode fazer uma pessoa ser extremamente materialista, neurótica e incapaz de ver um sentido na vida sem possuir ou fazer as coisas que existem no mundo. Por outro lado, estar imerso no holotrópico, na dimensão numinosa da vida, sem conseguir lidar com os aspectos práticos da vida é complicado, e dificulta a continuidade da mesma.