Google+ Psicologia Transpessoal Aplicada: 05/01/2007 - 06/01/2007

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Uma Interpretação Perinatal de Experiências de Quase-Morte Assustadoras- Christopher M. Bache

Um Diálogo com Kenneth Ring por Christopher M. Bache, Ph.D.

Uma Interpretação Perinatal 
de
Experiências Assustadoras de Quase-Morte (EQM)


RESUMO: Embora esteja de acordo com várias conclusões de Kenneth Ring, proponho uma interpretação mais compreensiva das experiências assustadoras de quase-morte (EQM). Critico a interpretação das EQM sem-sentido e vazias como reações de emergência e argumento que todas as três formas de EQM assustadoras - invertida, infernal, e vazias-sem-sentido - são melhor compreendidas com suas raizes no nível perinatal da consciência. Expando a descrição de resistência do ego à morte como a causa destas EQM, e desenvolvo as implicações gerais de uma leitura perinatal das EQM assustadoras. Finalmente, introduzo e exploro paralelos com a experiência da "noite negra da alma".

Qualquer um familiarizado com o trabalho de Stanislav Grof não pode deixar de se tocar com os paralelos fenomenológicos entre a sintomatologia perinatal (Grof, 1975, 1985, 1988) e experiências de quase-morte assustadoras (EQM) (Atwater, 1992; Grey, 1985; Greyson e Bush, 1992; Irwin e Bramwell, 1988; Rawlings, 1978). Estes extensos paralelos sugerem que o conceito do nivel perinatal de Grof pode conter uma chave importante para o entendimento dessas EQM enigmáticas. Kenneth Ring está ciente destes paralelos e os discute na sua análise das variedades vazias e sem-sentido de EQM neste artigo, "Resolvendo a Questão das Experiências de Quase-Morte Assustadoras" (1994). Sua análise é profunda e produtiva, e acredito que os paralelos com a experiência perinatal são muito mais amplos do que ele reconheceu.

Os paralelos experienciais sugerem que todas as três formas de experiências de quase-morte assustadoras têm raízes no nível perinatal da consciência. Gostaria de fazer, agora, uma apresentação mais completa dessa proposta. Começarei com uma revisão dos pontos mais importantes da experiência perinatal, segundo a descrição de Grof (1975, 1985, 1988).

Conteúdo Temático Restrito e Universal
Em contraposição à variedade de temas e questões que caracterizam o nível psicodinâmico da consciência, o conteúdo do nível perinatal é bem restrito. Ele se foca nas experiências problemáticas universais e endêmicas da condição humana. Tais temas são: nascimento, dor física, doenças, envelhecimento e morte. É um reservatório que agrega e armazena os reminscentes não-digeridos de tais experiências desafiadoras da nossa existência física e psicológica.

Altamente Condensado
No nível perinatal o inconsciente se organiza em sistemas altamente condensados (sistemas COEX), que armazenam nossas experiências em agregados de temática semelhante, as chamadas Matrizes Perinatais Básicas (MPBs) I até IV.Quando esse nível é ativado, não são apenas as experiências individuais e medos que são acessados, mas padrões altamente sedimentados e comprimidos de memórias e medos, o resíduo destilado de padrões comportamentais de uma vida inteira. Pela energia de um sistema COEX ser a energia cumulativa de todos os seus componentes, tais encontros são extremamente poderosos e arrebatadores.

O Repositório da Ilusão de Existência Separada
Sendo a intersecção entre as dimensões pessoal e transpessoal da consciência, o nível perinatal contém tanto aspectos pessoais quanto transpessoais. Não é apenas o nível fetal da consciência, mas um modo operacional de consciência onde o pessoal e o transpessoal se misturam, juntando seus padrões organizacionais e estruturas. Dada essa natureza híbrida, nossa descrição do perinatal varia se olharmos do ponto de vista pessoal ou do ponto de vista transpessoal da equação.

Da perspectiva pessoal, o perinatal parece ser o porão do inconsciente pessoal, onde se armazenam os fragmentos não-digeridos das experiências que mais seriamente ameaçaram a nossa integridade física e psicológica. É o repositório dos maiores desafios da nossa existência. Pequena maravilha, então, que experiências fetais pareçam tão grandiosas aqui, como derivações de um período do nosso desenvolvimento onde estivemos mais vulneráveis e afetados pelo nosso ambiente.

Da perspectiva transpessoal, entretanto, o domínio perinatal se parece diferente, e aqui descobrimos interessantes pontos em comum com “Um Curso em Milagres”(1975). Do lado transpessoal, o domínio perinatal se parece com o núcleo residual da insanidade vivida pela existência atomizada. É o depósito das nossas tentativas individuais e coletivas de viver a mentira da separação, fingir que existimos como seres autônomos, isolados da tapeçaria da exsitência. Ele representa a maior ignorância filosófica e doença psicoespiritual. O nível perinatal consolida a identidade de um indivíduo e de uma espécie inteiras, que ainda não usaram suas próprias awareness para penetrar nas raízes da existência, onde se descobriria sua conexão com toda a vida.

Da perspectiva pessoal, as experiências perinatais criam a forma de ser atacado e atacar de volta, de matar e ser morto, até – eventualmente estarmos completa e totalmente destruídos. Conforme vamos fazendo a transição para a perspectiva transpessoal, entretanto, essas mesmas experiências se descobrem como amorosas tentativas de nos salvar nos nossos esforços inúteis de nos separarmos do imenso fluxo da própria vida. Ataques impiedosos de uma perspectiva é libertação piedosa sob outra perspectiva. Não estamos sendo mortos de jeito nenhum, mas sendo nascidos para uma realidade que é maior, mais fundamental e mais “real” que a realidade física. A discussão de Ring sobre “Jacob´s Ladder (Rubin, Lyne, e Marshall 1991) vai direto nessa direção. Aliás, este filme pode ser visto como um roteiro da dimensão perinatal.

(continuação)


Padrões de experiências perinatais

Nas matrizes II até IV, o indivíduo enfrenta as maiores causas ou raízes do desespero existencial, solidão metafísica e sentimentos profundos de culpa e inferioridade ; mas as nuances e o foco dessas confrontações variam em cada fase, e seguem uma sequência de desenvolvimento.

Na Matriz II o sujeito costuma experienciar assaltos arrebatadores à aquilo que ele ou ela são totalmente indefesos. Torturas sem chances de escapatória, ele ou ela são colocados em um grandioso desespero metafísico. A existência parece totalmente sem sentido, e sentimentos de culpa, inferioridade e alienação são vividos com uma distinta qualidade de desesperança. Esta é a primeira matriz que costuma aparecer em contextos terapêuticos.
(Nota do tradutor: antes da matriz II, ainda existe a matriz I, que se refere ao estado inicial do bebê dentro útero antes do início do trabalho de parto. A Matriz II é o primeiro estágio do nascimento, por assim dizer.)

Na Matriz III a maioria dos temas presentes na Matriz anterior estão presentes, mas com uma diferença essencial. Como agora existe uma certa chance de escapatória - a cérvix está dilatada - começa uma luta titânica por sobrevivência. O encontro com o fogo purificador que destrói tudo que é ruim ou corrupto no indivíduo, é uma experiência que costuma aparecer com frequência.

Na Matriz IV, o sujeito pode perder a necessidade de sobrevivência e experienciar uma completa morte-do-ego. O mundo dele ou dela entra em colapso, com a perda total de referências significativas. Depois de morrer como um ego, ele ou ela experienciam renascimento para um modo de consciência trans-individual. Todos os tormentos cessam repentinamente e se seguem experiências de redenção, perdão, e amor profundo. Tais experiências são aprofundadas em uma direção mística, enquanto o indivíduo é tomado por vivências de unidade cósmica, características da Matriz I (Grof, 1975).

O processo de morte e renascimento nunca se completa em uma única sessão, e muitas sessões onde as mesmas questões são retomadas, até que todo o conteúdo perinatal esteja esgotado. O padrão usual é que o sujeito trabalhando nesse nível, vai eventualmente experienciar uma crise perinatal cada vez maior, que centraliza todas as fases em uma única fase. Enfrentando e resolvendo a crise, eventualmente vai levar a pessoa para experiências transpessoais positivas como conclusão, mesmo que o conteúdo perinatal possa aparecer em futuras sessões. No estágio final de uma sessão, as pessoas podem experienciar dificuldades de "reentrada" ou de retorno ao nível de consciência cotidiano e não-ampliado, se ficarem empacados em material psicodinâmico ou perinatal não totalmente resolvidos (Grof, 1980). (Este padrão se assemelha às observações de James Linley, Sethyn Bryan a Bob Conley (1981) de que experiências negativas costumam ocorrer no início e no final de E.Q.M.) Se o processo é continuado em múltiplas sessões, uma experiência final de morte-renascimento vai poder consumir todo o material perinatal, e em sessões posteriores o indíviduo vai acessar experiências transpessoais diretamente.





(...) Esse foi mais um trecho do texto "A Perinatal interpretation do frightening near-death experiencies: A Dialogue with Kenneth Ring", de Christopher M. Bache.

Veja um trecho anteriormente publicado desse mesmo texto: aqui
Previous posted part of this article: here
BZ - Viagem Alucinante (Jacob´s Ladder) - saiba mais aqui

A PATOLOGIA COMO MODO DE SER: UM ESTUDO DE BINSWANGER SOBRE A EXCENTRICIDADE

Por Nichan Dichtchekenian

Ludwig Binswanger é um psiquiatra suíço, nascido em fins do seculo XIX e, portanto, presente na primeira metade do século XX. Ele vem de uma família de médicos psiquiatras, avô e pai, que eram responsáveis e mantinham um sanatório na Suíça, do qual Ludwig foi herdeiro e diretor muitos anos. Além disso, manteve sempre um intercâmbio vivo e atualizado com outros psiquiatras da sua época e também com psicanalistas, como é o caso de Freud, com quem cultivou, durante muitos anos, um contato de amizade e de discussões profissionais.

Mas um acontecimento teve importância decisiva na vida intelectual e profissional de Binswanger : foi a leitura de “Ser e Tempo”, de Martin Heidegger. A reflexão de Heidegger ofereceu a Binswanger uma verdadeira e definitiva chave para a compreensão e a abordagem do fenômeno psiquiátrico. A partir daí, Binswanger encontra o instrumental adequado e riquíssimo para compreender o ser humano, sem que ele seja indevidamente confundido, na sua essência de ser, com outros entes que são estudados pela ciências. Binswanger encontra na Fenomenologia uma referência nova de método e, portanto, de conteúdo de estudo.

Esta é uma colocação muito cara à Fenomenologia : cada ontologia, cada concepção de ser de um ente, estabelece, automatica e necessariamente, um caminho para alcançá-lo, um método.

Para o estudo do Homem como Homem, naquilo que lhe é próprio e intransferível, esse caminho recebe o nome de método fenomenológico.

O método fenomenológico, por ser um modo descritivo e compreensivo de aproximação em relação ao Homem, modo este cujo o único pressuposto ontológico é o de permitir que o fenômeno humano fale por si mesmo, constata, nessa expressão do humano, que o Homem é, em todas as circunstâncias e momentos de sua vida, existência, isto é, ser-no-mundo.

A concepção do Homem como existência é a grande contribuição que o método fenomenológico empresta ao saber do Homem a respeito do próprio Homem.

Esse método, voltado para o Homem, constata que a sua essência de ser é existir. Isso indica : ser para fora, abertura para, acolhimento de, sensibilização por. Tudo isso é existir.

Existir é o conteúdo revelado a respeito do Homem pelo método fenomenológico.

Existir é tanto uma abertura, quanto a realização de um destino. O destino não é algo pré-estabelecido, mas vai se constituindo no decorrer mesmo dessas aberturas para.

O nome que essa constituição de um destino recebe na Fenomenologia, nas palavras de Binswanger, é o de biografia existencial, que é o perfil das diferentes aberturas para, e portanto, das escolhas que o Homem vive durante sua vida e cujo desenho constitui um sentido. Fenomenologicamente isto é a expressão da historicidade.

Acompanhar fenomenologicamente a história de uma vida é acompanhar as rupturas e as escolhas feitas e vividas por uma pessoa. História, para a Fenomenologia, não é a apreensão de um passado já constituído, mas o acompanhamento vivo das transformações quanto ao modo de ser e ao sentido de ser que o Homem vai contituindo durante a sua vida.

Para Binswanger, o sentido que a existência adquire, e que vai se tornando claro nos momentos críticos de transformação, recebe o nome de tema.

Então, existir não é compreensível apenas pela sua dimensão de disponibilidade e abertura, mas como realização orientada para um determinado destino.

A maneira de nós vivermos cada instante da nossa vida é sendo no mundo, vinculando a nossa subjetividade, isto é, a nossa maneira própria de nos abrirmos, a um mundo que está aí nos solicitando um posicionamento de ser. E se nos solicita é porque nos diz respeito.

A subjetividade, abordada fenomenologicamente, em nenhum momento da vida humana adquire um status de auto-suficiência, porque a sua constituição como tal se dá a partir de sua abertura para o mundo. Mas isso não quer dizer que a subjetividade se dilui no mundo. O seu contato com o mundo faz dela uma dimensão madura e caracterizadora de uma pessoa.

O Homem, em todos os gestos vividos por ele, inclusive aqueles da quietude e da reflexão, é ultrapassamento de si mesmo, é subjetividade vinculada a um mundo, abertura originária ao mundo.

Isso indica que uma plena entrega do Homem ao instante vivido, o leva inevitavelmente para além de si mesmo, isto é, para além de um modo absoluto de encarar as verdades reveladas até então. Cada instante é uma oportunidade para uma renovação do sentido de ser e de mundo, não orientada para destruir o já adquirido, mas para ressituar o seu novo valor.

Todos os comportamentos humanos, incluindo os psicopatológicos, são modos-de-ser-no-mundo, isto é, maneiras como uma subjetividade se liga, está aberta, está referida ao mundo. Porque mesmo o modo fantasioso e delirante de ser é uma maneira de viver a relação com o mundo, no caso, de uma maneira imaginativa e solitária.

O modo assim chamado de psicopatológico de ser não é um modo equivocado e errático de ser no mundo. É um modo de ser no mundo que precisa, em última análise, romper a insuportável e insustentável solicitação de contato.

O contato, no modo patológico de ser, é extremamente ameaçador porque todo contato implica em acolher em si algo novo e diferente, que vem do outro. O modo patológico de ser não conta com a segurança de ser si mesmo, que ofereceria a garantia de não ser invadido nem destruído pelo que vem do outro.

Binswanger vai nos trazer uma descrição e um esclarecimento do modo-de-ser-no-mundo daqueles que sofrem de uma psicopatologia, especificamente, no nosso caso de hoje, do modo de ser excêntrico no mundo.

Hoje nós não vamos abordar nem esgotar todos os aspectos presentes no estudo da excentricidade, mas apenas aqueles que dizem respeito a excentricidade como um modo de ser no mundo.

Para iniciar o nosso estudo sobre a excentricidade, vamos nos valer de um exemplo de um comportamento excêntrico, e iremos estudá-lo segundo o modo das ciências de uma maneira bastante resumida e segundo o modo analítico-existencial de uma maneira mais aprofundada, compreendendo o exemplo como um modo de ser no mundo.

Vamos ao exemplo:
Um pai pôe debaixo da árvore de Natal um caixão para a sua filha cancerosa.

Bem, acho que é bastante evidente que o comportamento desse pai provoca em nós espanto, estranheza, horror, uma tendência ao julgamento, uma rejeição. Fica evidente também, para nós, uma absoluta inadequação do comportamento do pai para com a filha.

Esse espanto e esse horror é que tornam possível a nomeação que as pessoas fazem desse tipo de comportamento, surgindo uma série de expressões para designar o excêntrico: ele tem um parafuso mal girado ou mal enroscado, ele está enrolado torto, girado ao contrário, retorcido, curvo; é uma pessoa com o espírito de través, desarmônico, desadaptado, desgracioso, grosseiro, cheio de arestas. É alguém que vive o mundo do través, o mundo sem encanto, sem leveza, o mundo das coisas forçadas, do trato difícil, um mundo onde nada se desenvolve suavemente, mas tudo sai torto e de través, dando errado.

Essas expressões com as quais nomeamos um comportamento excêntrico são verdadeiras num certo sentido : elas revelam que o modo de ser excêntrico não se ajusta no trato humano. É um modo de ser que cai fora das relações das pessoas umas com as outras. É um modo de ser que irrita profundamente a outra pessoa que não é excêntrica, que a frustra muito intensamente. Faz com que a outra pessoa considere o excêntrico como intratável, impenetrável, incomunicável.

Contudo apesar de reveladoras, essas expressões ainda são insuficientes para esclarecer o caráter humano do modo de ser excêntrico.

Ao nos voltarmos, com Binswanger, para a clínica psiquiátrica, vamos com a esperança de que ela vá realizar esse aprofundamento satisfatório para o esclarecimento da excentricidade. O que encontramos na clínica é porém um conjunto variado de descrições e conclusões que não nos oferecem a possibilidade de estabelecer um conceito articulado e claro da excentricidade.

Binswanger mostra que a abordagem clássica tradicional que a psiquiatria faz está completamente invadida por noções científicas, pré-científicas e de senso comum. Não é que não haja um sentido. Não há é um clareamento do sentido. Falta para a abordagem da psicopatologia a dimensão ontológica, falta a dimensão essencial, que é aquela que a filosofia nos oferece como maneira de percebermos o que é um modo determinado de ser, que é a expressão ontológica daquelas manifesações recolhidas pela psicopatologia.

Binswanger indica que a psiquiatria apoiada na ciência natural, encontra especial dificuldade para a caracterização da esquizofrenia. Ela não se deixa capturar nem reduzir a um conjunto de sintomas.

H.W.Gruhle, psiquiatra alemão, em seu livro “Psicologia da Esquizofrenia”, 1929 diz que a esquizofrenia e a excentricidade são deliberadamente invulgares e que aí estaria a chave para a sua compreensão: “O esquizofrênico quer opor-se, toma sempre uma posição esquerda. Muito embora não seja totalmente anti-social, é no entanto contrário às tradições, anti-convencional.” (pg.30) (...)“Assim, entendo sua excentricidade (do esquizofrênico) como um fator expressivo, a saber, da completa alteridade, do isolamento, da solidão – de certo não somente como expressão involuntária, mas como um desvio deliberado. É como se o esquizofrênico fizesse, aqui da necessidade uma virtude, não para se vingar da sociedade mas apenas a fim de, por assim dizer regalar-se, dar largas às suas energias em sua maneira peculiar de ser.” (pg 31)

Binswanger constata que há uma grande riqueza numa descrição como esta. Falta-lhe, porém, a consideração de que esses conteúdos vividos pelo excêntrico são modos de ser de uma pessoa no mundo, de um ser-aí, e portanto devem ser abordados como modalidades existenciais.

Esquizofrenia é um modo de ser, é uma maneira de lidar com os conteúdos. É onde o caráter de humanidade mais está presente, onde uma maneira de ser muito característica aparece. Ela é um modo de viver determinadas formas de ser; ela é uma maneira de ser.

Essa questão não fica restrita à esquizofrenia, ela ecoa por todos os cantos da psicopatologia.
Podemos afirmar, então, que toda patologia é modo de ser.

Quanto á excentricidade – uma forma de comportamento esquizofrênico – o saberes que a psiquiatria, seguindo o método das ciências naturais, nos oferece (descrições de características do comportamento do excêntrico) não evidenciam a relação que o excêntrico estabelece com o mundo e que torna possível o aparecimento, no excêntrico, dessas características.

O que a psiquiatria faz é considerar que a pessoa é uma entidade autônoma e isolada, que carrega em si, no nível de sua subjetividade própria, um modo de ser que determina a natureza da sua relação com o mundo. Para a psiquiatria clássica, o Homem ainda é visto na sua essência como um ente que pode ser compreendido de um modo isolado em relação ao mundo, como um pólo psíquico autônomo, quanto à sua vinculação originária com o mundo.

Para a Fenomenologia, não é o pólo psíquico que determina a relação do Homem com o mundo, mas é a relação do Homem com o mundo que, desde o primeiro instante, estabelece uma maneira de ser, uma certa subjetividade.

Mas precisamos examinar agora a pretensão da Fenomenologia Existencial de dar conta da excentricidade de uma maneira articulada e profunda, através do conceito de ser-no-mundo.
E o que é ser-no-mundo, condição originária do existir de todos os homens?

Antes de mais nada, isso quer dizer que nós vivemos um sentido claro e articulado do mundo em que estamos. Isso é o que Heidegger chama de “circunvisão organizadora” : o mundo, a cada instante da nossa vida, é uma totalidade que possui um sentido e que, de alguma maneira, provoca em nós vivências de curiosidade, vivências de contemplação e vivências de mobilização.

Essas vivências, próprias de um habitar o mundo como nosso lugar de existir, são vivências em que a nossa presença no mundo é um relacionarmo-nos com ele sob a forma de fazermos uso dele naquilo que ele pode nos dizer respeito para uma determinada finalidade, que também nos diz respeito. A isto, a Fenomenologia Existencial dá o nome de “relação instrumental com o mundo”, isto é : a forma primordial de ser no mundo é a do uso através do qual os elementos do mundo dão conta das necessidades do homem e se dão a conhecer a ele.

A percepção do sentido do mundo que o Homem vive faz com que ele não esteja unidirecionalmente presente no mundo, no sentido que qualquer aspecto do mundo percebido por ele pode ser enfrentado e compreendido na sua especificidade.

Todos os homens vivem um mundo ao qual pertencem e estabelecem alguma relação de uso com ele, portanto, vivem um mundo como provisão de suas necessidades e como cenário de seu saber.
O modo de ser-no-mundo da excentricidade é o de fazer um uso excessivo dos elementos do mundo, forçando o seu sentido original e também, a partir disto, frustrando qualquer compartilhamento para esse modo de fazer uso de um elemento do mundo.

Antes de passarmos a identificar esta e outras características da excentricidade no exemplo que enunciamos do pai com sua filha cancerosa, é importante notar que a nossa presença no mundo nunca se dá de uma maneira solitária e isolada. Nós sempre estamos no mundo a partir de outros com os quais estamos vinculados – nossos pais, nossa família. Sendo assim, o nosso ser no mundo é compartilhado, no sentido ou da convergência ou da divergência com os outros, que necessariamente estão ao nosso lado nos diferentes momentos do nosso existir.

Assim, seria mais justo substituirmos a expressão ser-no-mundo pela expressão ser-no-mundo-com-os-outros, porque não há, rigorosa e fenomenologicamente falando, um existir desvinculado dos outros. Embora cada um de nós tenha que se haver com o próprio destino, isso implica necessariamente em desdobramentos e consequências em relação aos outros.

É essencial para o estudo do modo de ser excêntrico do pai do nosso exemplo, notar como a sua existência como pessoa está comprometida e estreitada a partir da frustração de relacionamento que o seu comportamento provoca. O prejuízo de relacionamento que este pai tem com sua filha não é secundário, mas essencial na caracterização do modo excêntrico de ser.

Nas palavras de Binswanger: “Ao dar seu presente de Natal, o pai abre a comunicação com a filha, “Vem ao seu encontro” num convívio. Pois o presente é, em princípio, um abrir-se em comum que envolve uma participação recíproca. Mas aqui – e é isso que é decisivo para a excentricidade – o passo que se dá para o espaço aberto do convívio é anulado pela própria escolha do presente, mais ainda, não somente anulado mas, convertido em seu oposto. Quer dizer : a participação em comum no presente (no sentido em que este implica um presentear e um ser presenteado) converte-se numa total falta de participação da parte da pessoa presenteada. Mais ainda : o ser-presenteado converte-se num ser-ofendido. Ou “com” do convívio que estava à vista, de repente desaparece. Tocamos assim a particularidade essencial da excentricidade, sua verdadeira essência : o tema “presente de Natal” vai aqui muito além de um ponto compatível com sua própria consequência, o querer dar uma alegria com o presente, ou seja, vai além do convívio, ou melhor, passa por cima dele. Quando isso ocorre, como em nosso exemplo, a consequência do tema deixa de ser consequência ! Aqui, ao passar por cima do convívio, por cima da participação em comum em algo comum, a consequência do tema transmuta-se em seu contrário, em inconsequência. Eis aqui o verdadeiro ponto de ruptura, o ponto em que a “tensão” do tema se converte em “exagero, exaltação” e o tema “se rompe em pedaços”, o ponto em que a direção retilínea da “abordagem explicitadora, guiada pela circunvisão organizadora, da coisa providenciada” de repente se torna uma linha torta ou subitamente se poe de través. Ou, para lembrar a perífrase da excentricidade com a maluquice do “gira” : aqui, ao colocar o caixão sob a árvore de Natal, a consequência do tema “presente de Natal para a filha cancerosa” é girada além do limite até o qual ainda se podia preservar o convívio : ele é forçado ou girado, torcido errado. Como o parafuso torcido errado, ele não pode mais ser torcido, mas fica cada vez mais “entalado” quanto mais forçamos. Com esse excesso ou erro no girar ou torcer da consequência através da anulação do convívio, a consequência do tema converte-se numa penosa consequência (Szilasi), penosa em duplo sentido : no sentido da pertinácia com que é percebida pelo pai, por um lado, da afronta feita ou anulação do convívio, por outro lado. Há meios para preservar a participação comum na coisa comum – nós os denominamos consideração, cortesia, tato – e há meios para dificultar ou obstar a mesma – nós os denominamos negligência, falta de tato, falta de consideração, afronta, insulto.

Este é um trecho elaborado por Binswanger e nele podemos acompanhar com clareza o método fenomenológico como caminho para percorrer e alcançar a existência deste pai. Ao descrever os comportamentos do pai, em nenhum momento Binswanger se remete à dimensão psíquica dele, como possível fonte de inteligibilidade. Estabelecer um psíquico no Homem é, sob o ponto de vista fenomenológico, criar um obstáculo difícil de ser ultrapassado : é conceder ao Homem, em nome de uma originalidade ontológica equivocada, uma natureza isolada e desvinculada do mundo e dos outros. Aliás, conceder um psíquico ao Homem, como fonte dos acontecimentos vividos por ele, é considerar que o psíquico é o plano da realidade do Homem e que seus comportamentos no mundo com os outros são consequências deste plano. Resta saber como, sendo essa a condição humana, a de um ente fechado em si mesmo pelo psíquico, o que é real psiquicamente corresponde ao que é real no mundo com os outros. Esta é uma situação embaraçosa para um pensamento que ainda se guia pelo princípio filosófico de que um essência de ser é única e exclusivamente a substancialização de um ente, no caso, o Homem.

Ao acompanharmos Binswanger, percebemos claramente que ele situa os comportamentos do pai no contexto e estrutura de ser-no-mundo-com-os-outros. Assim, o presente caixão faz parte da situação de mundo Natal e é destinado, já que é um presente, à alguém, o presenteado. Além disso, um presente não é apenas um objeto dado com indiferença a alguém, mas para dar alegria e satisfação ao presenteado. Tudo isso é realizado pelo pai e levado em conta por ele : “É Natal, época de dar e receber presentes, tenho uma filha a quem presentear. E escolho um presente para dar a ela”. Mas a situação real como um todo não se esgota aí : sua filha está com câncer, com a morte se mostrando iminente. Isto também é parte essencial da situação, levada em conta pelo pai, que, a partir daí dá um caixão como presente de Natal à filha.

Neste momento, quase por “instinto” da época em que vivemos, perguntaríamos o “porquê” desta escolha de presente pelo pai. Binswanger nem esboça um movimento nessa direção : o método fenomenológico pede que Binswanger fique atento ao que “aparece, tal como aparece”, isto é, ao fenômeno humano de “festa de Natal para um pai e uma filha muito doente” e, acompanhando o comportamento do pai, constata sim que o pai escolhe um presente para esta ocasião de Natal, escolhe um presente especialmente para esta filha dele, e, por ser um caixão, rompe com duas características inerentes à situação total “festa de Natal” : a primeira, a de tirar da filha a possibilidade de usufruir do presente e a segunda, a de impedir que a filha pudesse, junto a ele, alegrar-se e compartilhar com ele dessa alegria. A primeira característica rompida pelo pai tira a filha da situação de presenteada de Natal, e a segunda suprime os sentimentos de alegria nela e cria uma distância e não comunicabilidade entre ele e a filha.

Além deste acompanhamento do fenômeno, Binswanger se aprofunda nos desdobramentos sobre o modo como o excêntrico vive o tempo, isto é, como ele temporaliza e o modo como ele vive o espaço, espacializa. Assim, o excêntrico vive o “tempo vazio”, o tempo sem transformação real e efetiva porque absolutiza-se em um conceito, uma idéia, sem levar em conta as características peculiares de uma determinada situação, tornando frustrada a eclosão de um novo momento.

E, também vive um espacializar onde o lugar das coisas do mundo é totalmente indeterminado e totalmente possível. As relações de pertinência que o excêntrico faz de uma coisa com outra são livres, não fixas, não compartilháveis pelos outros. – Isto é diferente da originalidade de criação da arte, que de algum modo alcança a compreensão dos outros como uma nova proposta de sentido.

E todo esse trabalho realizado por Binswanger, que aqui nós apenas trouxemos alguns aspectos, em nenhum momento escorrega para a busca de possíveis processos ou estruturas psíquicas pré-estabelecidas que estariam ocorrendo simultaneamente aos comportamentos do pai.

Para finalizar, quero ressaltar que essa forma de trabalho – a patologia como modo de ser – tem implicações institucionais e políticas claras : faz da loucura uma possibilidade de ser Homem e, também sem querer “sarar” os loucos, busca integrá-los à comunidade humana, considerando-a como uma maneira de existir.

Experiências Holotrópicas

O termo "holotrópico" foi criado por Stanislav Grof para diferenciar os estados alterados de consciência comumente conhecidos pela medicina e psiquiatria acadêmicas, dos estados ampliados de consciência. Esses últimos, objetos de suas pesquisas, podem ser denominados holotrópicos, quando apresentam uma alteração qualitativa de consciência, no sentido de disponibilizar conhecimentos intuitivos e de arquétipos do inconsciente coletivo, que proporcionem auto-conhecimento genuíno e transformador.

No modo holotrópico, ao contrário dos estados simplesmente alterados, não ocorre desorientação espaço-temporal. A pessoa sabe exatamente quem ela é, onde está, e além disso tem acesso a conteúdos simbólicos e não-verbais, dos tipos biográficos, perinatais e transpessoais, com riqueza de detalhes, físicos e emocionais. É capaz de reviver as experiências do seu passado ou mesmo se transportar para uma outra dimensão, sem perder o contato com a realidade concensual.
Os estados alterados (tais como embriaguez alcoólica, intoxicação neurológica e/ou química por drogas e doenças degenerativas), nem sempre são estados ampliados de consciência (tais como estados meditativos profundos com o uso ou não de drogas psicoativas, experiências de pico, exp. de quase morte, transes hipnóticos, transes xamânicos, emergências espirituais espontâneas ou provocadas, etc.).
Em função de as experiências e os estados holotrópicos não serem encarados como "normais" pela medicina ortodoxa, muitas vezes são confundidos com psicoses ou surtos. Se faz necessária uma experiência pessoal daquele profissional de saúde que tenha a intenção de compreender e trabalhar com os estados alterados de consciência, para que possa reconhecer e diferenciar imediatamente um surto psicótico de uma experiência holotrópica ou espiritual genuína. Muitas vezes quando mal diagnosticados, tais tipos de experiências holotrópicas ou espirituais, talvez possam se tornar psicoses, caso não se permita a manifestação e vivência plenas dos conteúdos inconscientes.
As experiências holotrópicas em geral, ocorrem em estados alterados de consciência, seguindo uma ordem ou prioridade. Conforme vamos nos aprofundando e avançando no processo de auto-conhecimento, mais nos aproximamos das experiências transpessoais.

Holotrópico vem do grego "holos" e "trepein", que quer dizer em direção à totalidade, orientado à totalidade. É um tipo de alteração de consciência onde se alcança uma ampliação das capacidades de percepção, pensamento, intuição, memória. Através dessa ampliação é possível acessar um modo onde uma sabedoria ou "radar interno" guia um processo de cura pessoal.
De uma maneira resumida e sintética, temos cinco tipos de experiências, a partir de observações de sessões de Respiração Holotrópica (MR):

0. Experiências estéticas e de padrões geométricos, com os olhos abertos ou fechados, visualização de cores. Tais padrões visuais e estéticos não contém nenhum significado ou sentido, servem apenas para sinalizar a entrada da consciência em um estado ampliado.
1. Experiências físicas, vivências de traumas físicos (operações, cirurgias, acidentes), tensões físicas, couraças musculares. O corpo é o meio mais facilmente acessado, em primeiro lugar, através dessa e de outras práticas com a respiração. Através do contato com os traumas, tensões e couraças musculares, ocorre uma auto-consciência corporal, e a partir daí, consciência de si mesmo, das emoções e pensamentos, que se podem (ou não) se manifestar em conjunto com as experiências físicas.

2. Experiências da vida após o nascimento, traumas psicológicos, experiências de infância até os dias atuais, fantasias inconscientes. Não são apenas lembranças, mas revivências, onde todos os dados sensoriais podem ser revividos: sensações físicas (cores, cheiros, gostos, sons), além dos sentimentos e emoções. A revivências dessas experiências permite uma compreensão da totalidade, até então incompleta para o sujeito.

3. Experiências perinatais, relacionadas com a gestação até o nascimento biológico. São alguns dos tipos de experiências mais ricas, intensas e fascinantes que se pode experienciar. Podem ser extremamente agradáveis ou intensamente desagradáveis, ou intermediárias; mexem profundamente com a nossa compreensão a respeito de quem somos, de onde viemos, para onde vamos, e onde estamos, pois lidam com as questões fundamentais da existência (vida, morte, finitude, dor, culpa, sexualidade, agressividade, amor).

Experiências perinatais (peri = ao redor, próximo) e (natal = relativo ao nascimento): revivência do nascimento biológico, sensações, sentimentos, impressões, alterações na percepção do ambiente, do próprio corpo e da realidade. Não limitam-se a uma mera regressão ao estado fetal. Em geral, a identificação com o feto é acompanhada de fortes emoções, muito mais intensas do que aquelas vividas na vida cotidiana, ainda que sejam bem conhecidas. Tais emoções atraem imagens de outras situações, verídicas e/ou fantasiosas, e arquetípicas, onde existe a identificação simultânea com outros grupos, em situações semelhantes às dificuldades enfrentadas pelo feto dentro do canal de parto. Revivendo tais detalhes, sob a nova perspectiva adulta, podemos compreender não só o nosso nascimento e vinda ao mundo, mas também as sensações e sentimentos mais instintivos que não são muito bem compreendidos pela mente racional, por possivelmente serem resquícios daquilo que experienciamos durante o nascimento, e que durante muito tempo ficaram sem o nosso conhecimento. Medo irracional e sem sentido, raiva, ansiedade, são alguns dos sentimentos que podemos reviver. Quando bebês, não temos linguagem para interpretar o que sentimos pela primeira vez durante o nosso parto, mas revivendo esses momentos primitivos, sob a perspectiva adulta, podemos compreender melhor o que sentimos.

4. Experiências transpessoais, de identificação com outras pessoas, outras espécies (animais, vegetais, minerais, processos da natureza), transcendência dos limites temporais e espaciais. Fazem parte do inconsciente coletivo. Não se restringem a imagens individuais ou pessoais, mas a símbolos coletivos, arquétipos, além de acesso a conhecimentos intuitivos a respeito de processos naturais, biológicos, modos de percepção de outras gerações, civilizações, espécies. O acesso a essas experiências não faz com que a pessoa fique permanentemente identificada com o aspecto coletivo, muito menos que ela deixe de ser ela mesma, por assim dizer. A percepção de uma expansão da própria identidade, de um campo mais individual para um campo mais vasto e coletivo, é em geral, muito positivo e libertador.
Pode-se concluir que segundo essa categorização, os traumas psicológicos são menos importantes do que traumas físicos. As experiências de infância, adolescência e da vida adulta são revividas, tanto experiências boas quanto as ruins. Temos uma tendência a focar em experiências ruins e negativas, mas as experiências boas também podem ser revividas, e assim, serem revisitadas sob uma nova perspectiva.